Crítica | Filme | Amanhã

Assim que tomei contato com o documentário Amanhã, que a Descoloniza estreia no circuito nacional em 29/2, lembrei do longa Boyhood: Da Infância à Juventude (2014). Ao qual o diretor Richard Linklater dedicou 12 anos de sua vida apenas em filmagens, exigindo o mesmo do elenco.

Amanhã tomou ainda mais tempo. Foram vinte anos da vida do diretor Marcos Pimentel entregues ao projeto, totalmente focado na realidade social de três crianças de Belo Horizonte (MG). Em um intervalo entre 2002 e 2022.

E separados fisicamente nas margens da Barragem Santa Lúcia. Ainda que vizinhos, nunca existiram em uma mesma realidade. Os irmãos Julia e Christian habitam o lado mais pobre da barragem. A outra criança, Zé Tomaz, vive em um mundo mais abastado.

Realidade social

Os três se conhecem em 2002 na brincadeira. Contudo, não se reencontram em 2022, quando o assunto ficou sério. Quando a vida se tornou mais séria. A ponto de Zé Tomaz se negar a reencontrar Julia e Christian:

“Resolvi pegar crianças de cada lado, provocar o encontro delas na barragem e levar uma para passar um fim de semana na casa da outra e vice-versa. Como criança não têm preconceitos, surgiram encontros maravilhosos entre pessoas que moravam tão perto, mas, ao mesmo tempo, eram tão distantes”.

O que começa em tom meio despretensioso em 2002 ganha um corpo parrudo junto com o cenário de 2022. O Brasil está dividido entre esquerda e direita, entre Lula e Bolsonaro. E justamente isso contribuiu para que Marcos Pimentel fizesse a amarração de Amanhã:

“O Brasil mudou radicalmente nos últimos anos. Entre 2002 e 2022, o país foi virado do avesso e a sociedade brasileira reflete cada uma destas mudanças. Os trágicos quatro anos do governo Bolsonaro me deixaram com a certeza de que havia chegado o momento certo para voltar. Havia ali um ponto de mudança capaz de dialogar perfeitamente com o efeito do tempo sobre as crianças filmadas em 2002”.

O tal ponto de mudança ganha forma nos depoimentos de Julia e Christian. Ela, sem oportunidade sólida em uma carreira, ainda mora na mesma região. Ele, institucionalizado em uma carreira de delitos, deixa a prisão para cantar rap.

Três vidas em 20 anos

Informações indiretas dão conta de que Zé Tomaz está preocupado demais com o futuro do país e com a polarização estabelecida na gestão Bolsonaro. A ponto de ignorar os vários convites do diretor para ser ouvido em Amanhã.

É frente isso que Julia e Christian especulam. Sobre como estará o amigo de infância. Profissionalmente, pessoalmente, moralmente. Os irmãos também têm opiniões diferentes sobre o momento que o país vive. Julia desacredita na classe política. Christian defende a política social que “enxerga” a população encarcerada.

Em suma, Julia seria a terceira via, Christian a esquerda e Zé Tomaz a direita. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. E uma boa dose de realidade pode incomodar muita gente na bilheteria.

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