O filme Eu, Capitão (lo Capitano), que a Pandora Filmes entrega ao circuito nacional em 29 de fevereiro trata de um tema atual e urgente: a imigração ilegal. Enquanto governantes mais abastados apenas pensam em criar muros nas fronteiras para tratar o assunto, há quem prefira contar a história dos imigrantes.
É o caso do cineasta italiano Matteo Garrone (de Gomorra), que na verdade teceu uma colcha de retalhos a partir de várias histórias de imigrantes às quais teve acesso. E que tentaram fazer a travessia da África para a Europa com ou sem sucesso.
Não por acaso, Eu, Capitão recebeu vários prêmios no 80º Festival Internacional de Cinema de Veneza. E concorre ao Oscar® 2024 de melhor filme internacional.
Colcha de retalhos
Depois de tomar contato com história de imigração como a maioria dos mortais, via cobertura jornalística, Matteo Garrone decidiu oferecer um olhar mais amplo sobre o assunto, normalmente restrito aos últimos momentos da travessia. O roteiro de Eu, Capitão, co-escrito pelo diretor ao lado de Massimo Ceccherini, Massimo Gaudioso e Andrea Tagliaferri, queria humanizar os protagonistas dessa história. Não os tratar somente como estatística alarmante.
Ao visitar um centro de acolhimento para menores em Catânia, na Itália, Garrone tomou contato com a história de um jovem africano que, aos 15 anos de idade, pilotou um barco abarrotado de imigrantes ilegais rumo à costa italiana. E assim nasceu a história de dois adolescentes senegaleses, Seydou (Seydou Sarr) e Moussa (Moustapha Fall), que deixam Dakar e partem rumo à Europa.
Em uma jornada que se torna épica à medida que surgem cada vez mais obstáculos no caminho deles, afastando-os da sonhada vida nova.
Vida nova na Europa
Os obstáculos surgem, basicamente, porque todos os envolvidos no transporte ilegal deles e de outros tantos imigrantes não se interessam pelos sonhos de ninguém. Tratam a todos apenas como uma rentável carga. Até quem fiscaliza as fronteiras dos países que os dois amigos atravessam quer levar o seu. Por isso, o sonho de Seydou e Moussa vai se desfazendo e se misturando à areia do deserto, junto aos corpos de quem teve menos sorte.
Eu, Capitão se apoia muito nessa história poderosa não para sensacionalizar, mas para deixar o espectador nem que seja um pouquinho desconfortável na poltrona. Claro que a atuação de Seydou Sarr foi um feliz achado para Garrone, que escalou esses dois jovens atores senegaleses para conferir mais autenticidade ao filme. Ambos, assim como muitos de sua geração, sonhavam em viver me outro lugar e sequer tinham saído do seu país.
Garrone ainda contou com a ajuda de Mamadou Kouassi Pli Adama no roteiro, ele mesmo um imigrante e com autoridade para definir o caminho dessa história. Isso depois de o cineasta tomar contato com várias histórias de meninas e meninos que tentaram a travessia: “Durante muito tempo, tive dúvidas sobre a minha legitimidade para contar esta história, mas é a história deles que eu conto”, revelou.
O resultado é bom, assim como o desfecho de Eu, Capitão. Contudo, não vale o espectador deixar o cinema da mesma forma como entrou. Algo em todos precisa mudar.
