Conto | Natal no sertão

A seca prolongada castigava o solo rasgado e coberto de pó vermelho. Na paisagem árida e pobre, poucos cactos, em constante desafio, insistiam em permanecer de pé.

Nesse cenário contrastante com o gélido inverno dos países onde a neve faz seu espetáculo, vivia a família da menina Maria: o pai José, a mãe Joana, o pequenino irmão Jesus e ela, Maria. Havia ainda o magro cachorro Capitão, duas cabras que restaram do antigo rebanho e o burrico Jericó.

A seca acompanhava o sertão há mais de duas estações, como diziam, ou seja, há mais de dois anos. Desta vez, nem um pouquinho de chuva para, ao menos, fazer vingar umas plantas de mandioca.

O rebanho foi sendo vendido. A vaca Nobreza seguiu o mesmo triste destino. Restou Jericó, além das duas cabras, que repartiam um pouco dos cactos que ainda sobreviviam bravamente.

Contudo, para Maria, nada poderia roubar a sensação, a expectativa e a alegria da noite de Natal. Não sonhava com presentes, com guloseimas, com renas ou Papai Noel. Pois desconhecia todas essas categorias de sensações e alegrias.

Em seus sonhos acordados, via claramente o presépio, com o nascimento do Menino Jesus; o Salvador deitado na manjedoura ao lado de Maria e José. Esse era, para Maria, o símbolo maior do Natal no seu pobre sertão.

A menina tenta convencer os pais para que, na noite anterior ao Natal, montassem um presépio. Estes comentam que seria impossível, pois não tinham os santinhos, nem mesmo os animais. Maria não se dá por vencida e exclama:

– A mãe será Nossa Senhora; o pai, São José, e Jesus será o Menino Jesus. O Capitão, Jericó e as cabras serão os próprios animais. O bercinho, coberto de palha do buriti, será o cocho das cabras. Para as roupas dos pais usamos as redes de dormir e eu me visto com o lençol azul que a senhora ganhou no ano passado, na quermesse.

No dia que antecedia o Natal tudo já estava pronto. Maria não via a hora de começar a anoitecer. O sol foi se escondendo no poente e a noite chegando, trazendo em sua companhia a lua e as estrelas.

O céu estava coberto de luzes faiscantes, como nunca acontecera antes. Todos, devidamente trajados e em volta de Jesus, no seu berço de palha do buriti. Os animais coadjuvantes, compenetrados e a postos no espetáculo de Maria, pareciam tudo entender.

A menina Maria, em uma prece, dirige-se aos céus agradecendo o presépio, que ela tanto queria. Em sua inocente prece, diz que se o Menino Jesus enviasse um pouco de chuva naquela noite, seria o melhor Natal de sua tenra vida.

O céu, como em um passe de mágica, escureceu. As estrelas subiam e desciam, brindando com luzes de todas as cores a família de Nazaré. Mansamente, a chuva iniciou cair, molhando o chão, regando as plantas e beijando as flores, que voltaram crescer no árido terreno.

O riacho, que secara há mais de um ano, voltou a correr em direção ao açude. Um cantarolar intenso de pássaros de todas as cores enchiam o ar úmido e fresco, onde predominava o perfume suave das flores, do sertão, se misturavam em perfeita harmonia.

E as noites da pequena Maria decorreram ano após ano com a luz da Estrela Maior clareando todo o sertão.

Jesus disse: “Eu sou a Luz, quem me segue, nunca estará nas trevas e na escuridão”.

Que a Luz do verdadeiro significado do Natal ilumine os meus “amigos para sempre” e suas famílias. Que essa Luz traga as bênçãos de um novo porvir, em 2023 e sempre!

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