Scarface e sua versão para a TV

O filme Scarface (Scarface) é de 1983, mas chegou aos cinemas brasileiros somente em 17 de maio do ano seguinte. É, naquela época os filmes americanos demoravam para chegar ao Brasil. Em compensação, normalmente eram lançados em sessões duplas. Sempre um título “mais forte” acompanhado de um “mais fraco”. Um ingresso, dois filmes. Matemática boa. Mas essa é outra história.

Os anos 1980 nos EUA foram marcados por muitos filmes considerados violentos demais, com muita ação, recheados de tiros, porrada e sangue cenográfico. Era o governo do ex-ator Ronald Reagan como presidente e havia a garantia de que todo e qualquer filme que exaltasse as instituições militares americanas, em detrimento das forças do mal comunistas, receberia apoio irrestrito.

Por apoio entenda-se permissão para utilizar de armamentos a helicópteros e porta-aviões na boa. Desde que a mensagem que o filme passasse fosse pró Reagan.

Scarface não é militarista, mas resvala no tema comunismo. Afinal, o Tony Montana de Al Pacino é um criminoso cubano que migra com seu grande amigo (Steven Bauer, alguém tem visto ele?) para os EUA, fugindo da ditadura de Castro.

Chegando em Miami, logo começam a trabalhar com o crime organizado local subindo de posto rapidamente na organização até serem donos de todo o tráfico de cocaína na cidade. Só que, avesso aos negócios com colombianos, arruma muitas inimizades na América do Sul. Mas o pior é que não consegue controlar seu vício nem manter sua relação com sua família e sua mulher (Michelle Pfeiffer) em um bom nível. Agora ele está só no topo do mundo do crime. E quanto mais alto, maior a queda.

Esse Scarface foi dirigido por Brian De Palma, um sujeito de carrega um currículo de responsa nas costas, entregando ao cinema títulos genais, que conquistaram público e crítica ao longo de sua carreira. Particularmente, destaco Os Intocáveis (1988), Vestida Para Matar (1981) e O Pagamento Final (1993), nessa ordem. Este último, mais um trabalho seu estrelado por Al Pacino, outro cara que dispensa apresentações.

Pois esta é uma refilmagem para o clássico de 1932, Scarface: A Vergonha de uma Nação, estrelado por Paul Muni, com roteiro assinado por Oliver Stone (Platoon), o veterano Ben Hetch (que escreveu o original) e um tal Howard Hawks. Sim, o famoso diretor de Rio Vermelho e Rio Bravo, ambos westerns estrelados por John Wayne. Mas Stone acabou colhendo os louros.

Ao lado de Pacino, estão no elenco Robert Loggia e uma jovem Mary Elizabeth Mastroantonio, dentre outros.

Voltando aos tais filmes violentos demais, Scarface não bateu nenhum recorde na contagem de corpos, como aconteceu eu Rambo II ou Comando Para Matar. Mas algumas de suas cenas foram marcantes para as telonas da época. E muito mais tarde, quando uma tal TNT foi exibi-lo nas telinhas, promoveu cortes horrendos nessas cenas, praticamente descaracterizando a história do cara que fazia o que tinha que ser feito para ficar rico e chegar no topo do mundo. Sem mencionar os cortes nos vários “fuck” que os personagens disparam.

Claro, para ganhar a audiência era necessário limar isso tudo para rebaixar um pouco a censura. Eu sempre fui contra esse tipo de “edição”. Falo que é como mexer no sorriso da Mona Lisa para melhorar o astral. Não cabe na minha cabeça!

Scarface não é unânime dentre público e crítica, mas não há como negar suas influências na filmografia posterior. Basta lembrar a clássica frase “say hello to my little friend“, de Pacino, que o animação O Espanta Tubarões parodiou em 2004.

Também não é a melhor performance de Al Pacino, mas sua filmografia é tão extensa e memorável que é difícil se superar o tempo todo.

Quem ainda tem um DVD player em casa, pode acessar uma edição especial que foi lançada por aqui repleta de extras. Lá é possível comparar a versão do cinema com a que foi para a TV e entender o que narrei. E aqui fica a pergunta: caberia um remake para Scarface?

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