Oscar® 2025: a sorte está lançada

Oscar® 2025: a sorte está lançada

Durante uma entrevista que fiz com Anselmo Duarte nos anos 1980, ele disse que ficou supercontente com a indicação de O Pagador de Promessas ao Oscar® de Filme Estrangeiro em 1963. Ele estava confiante de que o fato de o filme ter ganho a Palma de Ouro no prestigiado Festival de Cannes no ano anterior era mais do que uma credencial do potencial do filme para o maior prêmio do cinema mundial. Não foi. O Pagador de Promessas, baseado em texto de Dias Gomes, foi superado pelo francês Sempre aos Domingos. De lá para cá, o Brasil sempre esbarrou numa chance, mas outros estrangeiros conquistaram a simpatia da Academia.

E, quando falo isso, lembro do trabalho de Harvey Weinstein e seu irmão Bob, donos da Miramax, uma produtora de cinema independente que começou a fazer sucesso nos anos 1980, após produzir Sexo, Mentiras e Videotape. Foram eles que fizeram um lobby estratosférico para que seus filmes, A Vida É Bela e Shakespeare Apaixonado, tivessem destaque no lendário Oscar® de 1999.

E que lobby. A Vida É Bela deu a Roberto Benigni o prêmio de Melhor Ator, superando os novatos Tom Hanks (O Resgate do Soldado Ryan) e Ian McKellen (Deuses e Monstros). Além disso, foi indicado como Melhor Filme e empurrou Central do Brasil para fora do palco, ganhando o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Nem preciso dizer o que Weinstein e companhia fizeram com Shakespeare Apaixonado. Derrotou O Resgate do Soldado Ryan, Elizabeth e Além da Linha Vermelha.

Para nós, brasileiros, o maior estrago foi não respeitar o talento da fantástica carreira de Fernanda Montenegro. A Academia escolher Gwyneth Paltrow foi, no mínimo, um insulto à inteligência de quem gosta de cinema e sabe que a jovem atriz não teria nenhuma chance contra Cate Blanchett (Elizabeth), Meryl Streep (Um Amor Verdadeiro), Emily Watson (Hilary e Jackie) e, claro, a veterana Fernanda Montenegro e sua fenomenal performance em Central do Brasil.

Passados 26 anos, vivemos outro momento em que o Brasil pode brilhar. Não pense que os membros da Academia, num momento de sanidade, vão premiar Fernanda Torres por seu trabalho em Ainda Estou Aqui, como forma de reparar o que os lobistas da Miramax fizeram com Montenegro. Ainda vivemos sob o lobby, e um que está deixando a própria Academia numa sinuca de bico.

Mesmo para quem não entende a referência do jogo centenário, a ideia é que, na prática, quem se deixou ser pressionado na hora da escolha pode estar cometendo um erro.

Assim como os Weinstein faziam, outras companhias de cinema também fazem, de forma menos ostensiva. No caso de Ainda Estou Aqui, várias empresas de produção e distribuição deram seu quinhão para que os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas notassem o filme. E isso foi intensificado quando, logo após a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro, o prazo para entrega dos votos foi estendido por causa dos incêndios em Los Angeles.

Mas a campanha maior foi feita pelas produtoras francesas Why Not Productions, Pathé e Page 114, que emplacaram 13 indicações em Emilia Pérez, incluindo o discutível prêmio de Melhor Atriz para Karla Sofia Gascón. Karla é a primeira mulher transgênero a ser indicada ao Oscar® de Melhor Atriz na história do cinema mundial. Ela já ganhou por Emilia Pérez a Palma de Ouro, em Cannes, e também foi indicada ao SAG Awards, do Sindicato dos Atores da América.

Não posso imaginar o que está se passando na cabeça dos votantes do Oscar® agora. Votar numa personagem feminista ou escolher uma personagem transgênero que está redefinindo a história da mulher no cinema? É interessante essa sinuca de bico que, sob outro ângulo, pode beneficiar aquela atriz que está sendo considerada a favorita do Oscar®, Demi Moore, e seu extraordinário trabalho em A Substância. Votar nela reforçaria a importância de uma boa performance em relação às questões políticas e identitárias.

No dia 2 de março, direto do Dolby Theatre, em Los Angeles, será um momento histórico para a Academia e para o cinema. O imperador romano disse a frase certa para um momento como este: a sorte está lançada.

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