Uma das grandes diferenças entre uma série produzida para TV aberta e uma série feita para streaming é a continuidade das temporadas. Enquanto nas séries convencionais você tem temporadas regulares, que começam no último trimestre do ano, no streaming a irregularidade acabou se transformando em um dos fatores de sucesso. Ou melhor dizendo: você cria uma série interessante, com uma história que prende a atenção, e, quando ela se transforma em um sucesso, começa a discussão nos bastidores sobre quando a série deverá retornar com uma nova temporada.
Em pouco menos de 15 anos, a Netflix foi abrindo o mercado de consumo para séries novas e fora dos padrões da TV convencional. Começou com Orange Is the New Black e House of Cards, ambas lançadas em 2013 e com 13 episódios cada. O canal de streaming ainda estava tateando no escuro, usando a fórmula tradicional de uma série de meia-temporada, quando uma nova produção chegava à rede de TV no meio da temporada, com 12 a 13 episódios. Foi assim com Grey’s Anatomy, que estreou na ABC com 9 episódios em 2005.
Com o passar do tempo, o streaming entendeu que o que estava atraindo novos assinantes não era apenas a nova série, mas produções com poucos episódios. Foi o que aconteceu com a criação dos Irmãos Duffer, Stranger Things, que estreou na Netflix em julho de 2016 com 8 episódios de pura emoção.
A série mostra um grupo de garotos que sai em busca de um amigo desaparecido misteriosamente nos arredores da cidade fictícia de Hawkins. Enquanto as buscas começam, surgem outros elementos importantes na história, como um laboratório secreto do governo americano que cria crianças com poderes mentais, sendo uma delas Onze (Millie Bobby Brown), que pode mover objetos com a força do pensamento. O Professor Xavier dos X-Men adoraria ter a garota em sua escola de mutantes.
Seguem-se outras revelações, como o Mundo Invertido, uma dimensão paralela onde existem monstros, e que, no futuro, podem decretar o fim da humanidade como a conhecemos. Repleta de elementos de filmes e séries dos anos 80, Stranger Things se transformou em um fenômeno no streaming, criando uma base para que a própria Netflix apoiasse outras produções nesse formato — algo fundamental para a plataforma enfrentar, anos depois, a Guerra dos Streamings.
Isso, contudo, não entra nessa história. O que é importante ressaltar é que a irregularidade na exibição das temporadas acabou se tornando um atrativo para que os fãs gritassem nas redes sociais: “Cadê a nova temporada de Stranger Things?” A segunda temporada chegou em outubro de 2017, enquanto a terceira foi lançada em julho de 2019, seguida pela quarta, em maio de 2022. É claro que a quinta e última temporada, anunciada, não chegaria sem que a Netflix criasse um evento para ela estrear no canal de streaming.
Ela não só chegou três anos depois, como foi dividida em três modos de exibição: o primeiro volume, com quatro episódios, foi lançado em novembro de 2025; outros três episódios chegaram no dia 25 de dezembro; enquanto o último, com duas horas de duração, foi exibido na noite do dia 31, véspera do Ano Novo. Aff!
Vários fatores podem explicar esse período exagerado entre as exibições das temporadas. Nenhuma dessas mudanças faria a menor diferença para os fãs hardcore. O problema em produções com adolescentes é que eles crescem entre uma temporada e outra. Um exemplo disso, que gera um choque no espectador, foi quando a TV Cultura comprou as duas primeiras temporadas de Anos Incríveis (1988) e as exibiu diariamente, a partir de 1991. Quando a emissora adquiriu a terceira temporada, houve um salto de três anos. Todo o elenco, especialmente os garotos, tinha visivelmente crescido.
Ou seja, quando você assiste à primeira temporada e, quase nove anos depois, vê a última, está claro que todo o elenco está temporalmente modificado. Todos cresceram. Aqueles que tinham rostinho de pré-adolescente agora já podem servir no exército. É o caso de Noah Schnapp, o ator que interpretou o pequeno Will aos 12 anos de idade. Na última temporada, ele já é um jovem adulto de 21 anos. Por isso, quando o personagem revela um segredo que poderia afetar sua relação com o grupo de amigos, só os fãs mais radicais ficam impressionados.
O que não justifica é a duração de pouco mais de duas horas do último episódio. Toda a temporada foi criada para o combate final entre a criatura que invade a mente das pessoas, chamada Vecna. Seu principal antagonista é Onze, e o aguardado confronto final entre eles é um dos grandes atrativos da série. No entanto, os três episódios do volume 2, que foram exibidos no Natal, não trouxeram nada de realmente importante para a trama. Se os Duffer tivessem distribuído as situações críticas vividas pelos personagens ao longo do longa-metragem final, toda a temporada teria sido mais emocionante.
Tudo o que foi construído durante a série vem da memória afetiva dos anos 80, onde a base de Stranger Things foi criada. Filmes de referência como Os Goonies, O Exterminador do Futuro (com a participação especial de Linda Hamilton na série), Gremlins, Aliens: O Resgate, A Hora do Pesadelo, Halloween, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e até o drama juvenil Conta Comigo estão presentes. Um dos personagens que chama a atenção no capítulo final é a jovem Nancy Wheeler, interpretada por Natalia Dyer. Sua postura de não se deixar intimidar por nada foi crescendo ao longo da série. No último episódio, ela lembra a Tenente Ripley (Sigourney Weaver) em Aliens: O Resgate, não apenas pela postura de comando da situação, mas também pela vestimenta e manejo de armas, quando lidera um ataque ao covil de Vecna.
Stranger Things, como um todo, é uma das produções mais criativas da Netflix. Divertida, com uma história que mistura vários gêneros dentro da ficção científica. Um elenco sem grandes estrelas, mas com potencial para fazer sucesso tanto dentro quanto fora da telinha. Para a Netflix, foi importante para testar um formato de produção: a minissérie. Você lança a série com poucos episódios e, se funcionar, aposta em novas temporadas. Caso contrário, foi bom enquanto durou.
