Agatha Christie: o mistério vive!

Agatha Christie: o mistério vive!

Mistério e suspense sempre foram gêneros literários que me prenderam a atenção desde que descobri As Aventuras de Sherlock Holmes, escrito por Sir Arthur Conan Doyle, na biblioteca do Zuleika de Barros, em 1970. Era fascinante como a história se desenrolava, mantendo a atenção do leitor, mesmo quando Doyle fazia você retroceder no tempo para entender como os personagens chegaram a determinado impasse. Foi assim com O Estudo em Vermelho, que li anos mais tarde, depois de vasculhar as bibliotecas Mário de Andrade e Monteiro Lobato no centro de São Paulo.

Foi com O Caso dos Dez Negrinhos, livro que ganhei do antigo e fantástico Círculo do Livro, que conheci Lady Christie. Que diabo era aquela história onde o final feliz ficava na mente do leitor, após acompanhar as mortes de dez pessoas estranhas numa ilha durante um final de semana? Diferente de um teleteatro que vi na TV Cultura, onde a licença poética ganha espaço em detrimento da obra original. Tudo bem, já que recentemente assisti a uma adaptação feita em 1945, com o título de E Não Sobrou Nenhum.

Em tempo: O livro foi escrito em 1939, tornando-se um best-seller e levando a Fox a comprar os direitos para fazer a primeira de muitas adaptações para o cinema e a televisão. O título original era Ten Little Niggers, uma brincadeira infantil na Inglaterra. Para evitar problemas políticos, o livro foi lançado nos Estados Unidos com o título And Then There Were None (E Não Sobrou Nenhum). A pedido da família de Agatha Christie, a partir de 2020, todas as publicações da obra, inclusive no Brasil, passaram a ser uma tradução do título original modificado: E Não Sobrou Nenhum.

Também foi numa coletânea de contos que conheci o detetive belga Hercule Poirot. Claro que ele me lembrava o estilo de dedução lógica de Sherlock Holmes. Mas seu estilo de trabalho era muito diferente. Poirot, além de ser um excelente detetive, era um dândi, que se preocupava com a aparência, o estilo de suas roupas, apreciador de boa comida, além de cuidar com exímia perfeição do seu bigode.

Essa descrição é muito bem construída no filme de Sidney Lumet, O Assassinato no Expresso do Oriente, de 1974, quando às vésperas do crime acontecer em um dos vagões do lendário transporte, Poirot (Albert Finney) usa um creme para suas mãos e coloca um bálsamo em seu bigode antes de dormir. Na nova versão, feita por Kenneth Branagh, em 2017, vemos o detetive ponderando com um nativo de Istambul se os ovos que ele queria para o café da manhã tinham o mesmo tamanho.

Em 1980, conheci outra personagem criada por Agatha Christie, no filme de Guy Hamilton, A Maldição do Espelho. Além de um elenco estelar com Elizabeth Taylor, Tony Curtis, Rock Hudson e Geraldine Chaplin, a personagem principal, feita por Angela Lansbury, era a incomparável Miss Jane Marple. Ela moradora da pequena comunidade de St. Mary Mead, no interior da Inglaterra, tem como hobby ser detetive amadora.

Em A Maldição do Espelho, Miss Marple fica curiosa quando uma das maiores propriedades da região é comprada pela famosa estrela de Hollywood, Marina Gregg, interpretada por Elizabeth Taylor. Ao participar de um evento em homenagem à Marina, uma das convidadas é morta envenenada. Não preciso dizer que Miss Marple vai colhendo informações passo a passo até construir a cena de um crime que chocaria muita gente. Fantástico.

Muitos desses momentos do cinema ainda precisam ser descobertos pelas novas gerações, sem falar em várias obras que ainda não tiveram a chance de serem conhecidas pelo público em geral, que não tiveram o prazer de acompanhar página a página um delicioso mistério de Lady Christie. Hercule Poirot, por exemplo, ganhou uma versão fantástica feita por David Suchett, na série Agatha Christie’s Poirot (1989), exibida pela ITV.

O Poirot feito por Peter Ustinov também foi importante para o personagem no cinema: Morte sobre o Nilo (1978), Assassinato num Dia de Sol (1982) e Encontro Marcado com a Morte (1988). Ele também fez três telefilmes com o personagem. Cabe aqui duas menções honrosas: uma para o Poirot feito por Alfred Molina na versão contemporânea de Assassinato no Expresso do Oriente (2001), uma produção exibida pela HBO no Brasil, e outra para John Malkovich na minissérie The A.B.C. Murders (2018), baseada na obra publicada em 1936.

Miss Marple também ganhou seus momentos na TV, com várias séries, em especial Marple, de 2004, estrelada por Geraldine McEwan (2004-2007) e Julia McKenzie (2008–2013). Nos bons tempos do DVD, a Warner Bros lançou uma caixa com quatro casos de Miss Marple, interpretada por Margaret Rutherford.

Oficialmente, a obra de Agatha Christie se estende entre dezenas de histórias em livros, contos e peças de teatro, como Testemunha de Acusação, que estreou nos teatros de Londres em 1953 e foi para o cinema com Tyrone Power, Marlene Dietrich e Charles Laughton em 1957.

Por tudo o que já comentei acima, imaginem minha expectativa para assistir à minissérie Os Sete Relógios, que chega dia 15/1 na Netflix. A produção é baseada no livro O Mistério dos Sete Relógios, publicado em 1929, junto com a coletânea Sócios do Crime, que virou uma série da BBC em 1983. A história é ambientada nos anos 20, na Mansão Chimneys, que foi alugada por um casal milionário para uma temporada enquanto os verdadeiros donos estão viajando. É lá que um grupo de jovens decide fazer uma brincadeira com Gerry Wade (Corey Mylchreest), que sempre dorme demais. Eles colocam 8 despertadores para acordá-lo, mas, quando os relógios acabam de tocar, o grupo descobre que o amigo está morto.

Tudo começa a ficar mais complicado com a chegada de Bundle Brent (Mia McKenna-Bruce), a futura herdeira de Chimneys. Ela começa a desconfiar de que a história toda não está certa e decide fazer ela mesma uma investigação sobre o caso. O que ela não previu ao tomar essa iniciativa é que sua vida poderá mudar radicalmente quando descobrir o que aconteceu naquela casa.

Além de Mia (Academia de Vampiros), a produção conta com Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei) e Martin Freeman (Sherlock). O Mistério dos Sete Relógios chega com três episódios no total. Enquanto isso, pode procurar no Looke e no Prime Video outras obras adaptadas dos crimes criados pela mente fantástica de Agatha Christie. Você não vai se arrepender.

Deixe um comentário