Entrelaçando dados reais e ficção, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet transporta para a tela o livro de Maggie O’Farrell que usa a vida privada de William Shakespeare e a criação de Hamlet como ponto de partida. O resultado é uma história de amor entre um casal e também entre pais e filhos, entre irmãos, do luto e suas consequências.
A inspiração de O’Farrell vem de um fato. Em 1596, Hamnet, filho de William Shakespeare, então com 11 anos, morre em Strarford-upon-Avon. Cerca de quatro anos depois, o dramaturgo escreveu a tragédia do príncipe da Dinamarca famoso por seu monólogo “ser ou não ser”, dando ao personagem uma variação do nome do garoto. No livro, o nome Shakespeare não aparece. O criador de Hamlet, Macbeth e nome essencial da literatura mundial é tratado como “pai”, “marido” e outras referências, o exercício circular evitando que sua fama distraia o leitor da história.
No filme, o nome famoso aparece, mas de forma muito econômica. No longa com direção de Chloé Zhao (Nomadland: Sobreviver na América), o jovem William (Paul Mescal), se interessa por Agnes (Jessie Buckley), mulher versada no conhecimento ancestral dos sonhos e das ervas e acostumada a passar horas na floresta. O comportamento fora do padrão atrai comentários dos aldeões, mas para William, preso ao trabalho de professor de latim para pagar dívidas do pai, Agnes é o retrato da liberdade de viver sob os próprios padrões e anseios. Contrariando a todos, os dois se casam e têm três filhos, Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e os gêmeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe). Imediatamente, Agnes se preocupa. Seus sonhos mostravam dois e não três filhos ao seu lado no momento da morte. Em sua espiritualidade, é certo que uma das crianças está em perigo. Mais adiante, em um momento de brilho como Mary, a mãe de Shakespeare, Emily Watson fala do medo que acompanha as mães a cada instante da vida dos filhos, a constante possibilidade da perda, ainda maior nesses tempos de pouca ciência.
O filme segue com William fora de cena em Londres, para onde Agnes o incentivou a ir, ciente de que o marido precisava de horizontes mais largos, enquanto acompanhamos ela e as crianças no campo até que a tragédia anunciada no sonho se realiza e Hamnet morre. Como esperado, a morte do filho impacta o relacionamento de Agnes e William, eleva o ressentimento pela ausência dele e são esses momentos finais que elevam o filme que se apoia grandemente na atuação de Jesse Buckley.
Não vem ao caso lembrar que entre a morte do filho e a produção de Hamlet, Shakespeare escreveu outras peças, incluindo duas comédias, Muito Barulho por Nada e Do Jeito que Você Gosta. Aqui, a perda pessoal leva direto à tragédia no palco e a uma catártica apresentação no The Globe – o real e não a réplica que hoje existe – quando a dor de William é finalmente exibida e Paul Mescal tem seu ponto alto. Até ali, Agnes havia mantido distância do trabalho do marido e sua reação inicial a Hamlet, a peça, é de raiva e rejeição, até finalmente se metamorforsear em compreensão diante do ator (Noah Jupe, irmão do garoto Jacobi Jupe) que interpreta o príncipe da Dinamarca no palco.
Bem construído desde os figurinos terrosos de Agnes à primeira cena de Wiliam preso por trás da janela, ao elenco afiado, passando por pequenos trechos dos trabalhos de Shakespeare, como as crianças encenando a cena das bruxas de Macbeth, o longa examina a força da dor, o efeito da perda. Shakespeare aqui não é um gênio, mas um homem abalado, tanto pela necessidade de criar sua obra como pela perda do filho ao lado de uma Agnes feroz, raivosa, como cada um de nós diante da morte de quem amamos. Estreia em 15/1/26 distribuído pela Universal Pictures.
