O grande problema das grandes séries de sucesso é a necessidade dos produtores de tentar emplacar outras produções baseadas na criação original. Nem sempre funciona. Na história da TV mundial, é possível contar nos dedos as produções que conseguiram fazer seus “filhotes” caminharem com suas próprias pernas, como Torchwood, baseada na série britânica Dr. Who, a franquia Lei & Ordem e, claro, Jornada nas Estrelas, que acabou de estrear seu 11º spin-off, Jornada nas Estrelas – Academia da Frota Estelar, no Paramount+.
Quem chegou simultaneamente ao canal HBO e ao streaming HBO Max foi O Cavaleiro dos Sete Reinos, terceira série baseada no universo fantástico criado por George R.R. Martin para Game of Thrones, agora conhecido pelo título original da saga literária do autor, Guerra dos Tronos. Enquanto A Casa do Dragão, série sobre a família Targaryen, se passa 200 anos após os eventos de Guerra dos Tronos, a nova série acontece 90 anos antes.
A série narra a história de Dunk (Peter Claffey), um garoto que foi escudeiro de um cavaleiro da corte e, após a morte deste, decide assumir seu lugar para participar do torneio de Campina de Vaufreixo. Na viagem, Dunk conhece o pequeno Egg (Dexter Sol Ansell), um garoto sem família que se transforma em seu escudeiro. Juntos, passam a viver aventuras em sua jornada por Westeros. A amizade entre os dois se torna algo sólido, que, no futuro, desempenhará um papel central na estrutura do poder dos Sete Reinos.
Olhando as sinopses do livro e da série, poderíamos dizer que estamos diante de uma saga heroica vivida por dois forasteiros. Porém, não é isso o que acontece no primeiro episódio, o único disponível no próprio canal HBO Max. Em outras circunstâncias, o próprio canal disponibilizaria outros episódios para a imprensa especializada, mas isso é um assunto para outro tema. O fato é que nada, neste primeiro episódio, justifica seguir em frente com a série.
O curioso é que a série começa de forma bem estranha. Após enterrar seu antigo mestre, Dunk começa a filosofar sobre o seu futuro, no meio de uma grande chuva. No dia seguinte, ele olha para o céu e, pasmem, a cena seguinte é ele defecando ao ar livre, sobre o túmulo do dia anterior. E não é uma cena simulada. O diretor britânico Owen Harris, que já trabalhou em séries como Misfits (2010), Black Mirror (2013) e A Senhora Davis (2023), não se importa com simulações, mostrando o traseiro branco de Sir Dunk empenhado em usar seu esfíncter.
Esse é o começo da jornada de Dunk em direção ao lugar onde acontecerá o torneio. Lá, ele é literalmente um peixe fora d’água, já que precisa comprovar que é o legítimo herdeiro da espada que herdou. O que chama a atenção nesse primeiro episódio são as estranhas relações entre as pessoas em Vaufreixo. Dunk, que tem uma personalidade que não gosta de conflitos sem sentido, acaba conhecendo Sir Lyonel (Daniel Ings), o dono do lugar. O que parece ser uma amizade forjada na bebida, não se concretiza. Afinal, Dunk precisa do reconhecimento de algum cavaleiro para participar do torneio. E não é enchendo a cara com Sir Lyonel que ele vai conseguir.
Quase no final do episódio, Dunk encontra Egg e se convence a deixá-lo ser seu escudeiro. Ali, sim, nasce a amizade entre o grande cavaleiro (Dunk tem quase 2 metros de altura) e o pequeno escudeiro. Se isso vai se transformar numa série cultuada como Guerra dos Tronos, ainda é difícil saber. Mesmo A Casa do Dragão, que tem apenas 2 temporadas e mais 2 previstas até 2027, não parece ter a força da produção original para garantir a idolatria.
A cena da árvore no começo do episódio narrado aqui era para ser chocante, como a descoberta da relação incestuosa entre Jaime e Cersei Lannister, também no primeiro episódio da série. Os produtores deveriam rever seus conceitos. Chocar é uma coisa, ser escatológico é outra totalmente diferente, e passa longe de uma boa trama.
Melhor sorte nos próximos seis episódios da primeira temporada de O Cavaleiro dos Sete Reinos.
