Crítica | Filme | Marty Supreme

Crítica | Filme | Marty Supreme

Prepare-se para uma correria de acontecimentos, referências, participações especiais e situações estranhas, incluindo alusões racistas e por aí vai. Ninguém disse que Marty Supreme era simples.

Alvo em constante movimento, Marty é ao mesmo tempo um homem cujo maior objetivo é ser a pessoa importante que ele já pensa que é e uma criatura sem qualquer rumo. Tudo isso mais ou menos inspirado pela história de Marty Reisman, campeão de tênis de mesa nos anos 1950 que começou a carreira desafiando outros jogadores num clube em Nova York. Ele começava fingindo ser ruim, perdia um pouco e só depois mostrava do que era capaz. Obviamente, jogando a dinheiro. Com uma inspiração dessas, não espere que o Marty do filme seja lá muito honesto.

Estamos em 1952 e Marty Mauser (Timothée Chalamet) trabalha como vendedor numa loja de sapatos. Logo descobrimos que a loja pertence a um tio e Marty está ali apenas para obter o dinheiro para participar do campeonato mundial de tênis de mesa e para um rápido entrevero no depósito com Rachel (Odessa A’zion), com consequências esperadas e óbvias. O objetivo é absurdo para uma típica família judaica novaiorquina, incluindo Fran Drescher como o estereótipo da mãe que quer controlar o filho a ponto de fingir que está morrendo. Mas isso não impede que Marty use de todos os artifícios conhecidos e desconhecidos para conseguir o dinheiro e não apenas ir até Londres para participar do campeonato. Ele também quer ser tratado como um rei. E, pior, ele consegue. E esse é apenas o começo.

Chalamet está abertamente em busca de um novo status com Marty, a típica escolha de atores bonitos – você pode discordar, mas o rapaz tem uma bela figura – quando querem chamar a atenção para o trabalho e não seu visual. Marty é magrelo, marcado pela acne, dono de uma horrível monocelha e um bigode ainda pior. É também um talentoso jogador de tênis de mesa, o que exigiu um ano de treinamento do ator, com ótimos resultados. Não há dúvidas de que interpretar o perpetuamente seguro de si Marty é um desafio que Chalamet vence com qualidade.

Mas, embora até divertido e, sem dúvida talentoso, Marty, o personagem, é o perdedor com menor capacidade de conquistar a simpatia do público já visto nas telas. Uma boa parte da audiência pode achar interessante seu talento para escapar vezes sem conta de suas próprias trapalhadas, e sua capacidade absurda de atrair as mulheres, incluindo Kay, personagem de Gwyneth Paltrow em seu retorno às telas. Classuda, bela, Kay é uma atriz famosa que largou a carreira para uma vida miserável como esposa troféu de um milionário. É, portanto, mais velha e mais experiente que Marty – e demonstra isso várias vezes ao deixar claro que sabe o que ele está aprontando – mas ainda assim não resiste a um rala e rola. E isso na grama do Central Park.

O filme também vai além da conta com um flashback ambientado em Auschwitz que mostra um homem com o corpo coberto de mel para os outros prisioneiros lamberem. Não há dúvidas de que medidas além do desespero foram usadas em momentos em que a sobrevivência valia qualquer esforço, mas a cena em nada evolui a história e beira a sexualização.

Para quem gosta de achar convidados especiais, o longa é também uma sequência enlouquecida. A lista inclui Tyler, the Creator, os empresários Kevin O’Leary (Shark Tank) e John Catsimatidis, os diretores Abel Ferrara e David Mamet, o designer Isaac Mizrahi, o campeão de tênis Koto Kawaguchi no papel do rival de Marty, Koto Endo, a escritora Naomi Fry, os jogadores de basquete Kemba Walker e Tracy McGrady e o ex-jogador George Gervin, e o equilibrista Philippe Petit, famoso por andar na corda bamba entre edifícios em Nova York. Esse último talvez uma metáfora ao equilibrismo que Marty exercita a cada instante, encontrando sempre uma brecha para tentar sair por cima, ou pelo menos escapar vivo, nesse mundo pós-guerra ao som de uma trilha sonora de décadas depois, como a oitentista Forever Young.

Tudo corre, bate e rebate até a cena final em que Marty, finalmente, parece atingir a idade adulta. Um momento que parece apontar que a temporada dos planos malucos acabaram. Mas é difícil acreditar que um narcisista como Marty mude, por mais poderoso que seja o evento ou suas lágrimas. Estreia em 22/01 distribuído pela Diamond.

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