Crítica | Filmes | Trilogia O Senhor dos Anéis

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O primeiro contato que tive com a obra de J.R.R. Tolkien foi com a animação dirigida por Ralph Bakshi, em 1978, que eu conhecia pelo seu trabalho no cinema animado underground com O Gato Fritz (1972) e Heavy Traffic (1973). O trailer já mostrava esse lugar exótico, com criaturas mágicas e monstros assustadores, mas o filme não arranhava a superfície da obra de Tolkien.

Para entender o que estava acontecendo, já que o filme enxugou muita coisa, procurei os livros e, sim, mergulhei em páginas e mais páginas de uma aventura épica sem precedentes. Para minha grata surpresa, as notícias sobre uma nova adaptação da obra de Tolkien, que seria produzida na Nova Zelândia, chegaram a mim. O responsável por essa empreitada era o cineasta neozelandês Peter Jackson, que conseguiu os direitos do produtor Saul Benz, responsável pelo desenho animado de Ralph Bakshi.

Jackson tinha um plano de produção de três filmes, numa clara determinação de extrair tudo das páginas escritas por J.R.R. Tolkien. Pesava contra ele sua pouca exposição no cenário internacional. Mas a premiação de seus primeiros trabalhos Fome Animal (1992), ganhador dos prêmios de cinema fantástico de Avoriaz e Sitges, e a indicação ao Oscar de Roteiro por Almas Gêmeas (1994), pesaram favoravelmente para seu novo projeto.

O plano de Jackson, assim que conseguiu convencer os executivos da New Line, o estúdio agregado da Warner Bros. para projetos diferentes, era filmar os três filmes simultaneamente. Nem é preciso imaginar a logística de como foi essa ideia, já que estamos falando de uma história dividida em três partes, que acontecem simultaneamente ao longo de pouco mais de um ano, do início de A Sociedade do Anel até a destruição do Um Anel na Montanha da Perdição. Na realidade, a história começa vinte anos antes, quando Bilbo encontra o anel do poder, mas isso fica para outra trilogia.

O dinheiro gasto para essa, inicialmente considerada extravagância cinematográfica, era em torno de 93 milhões de dólares por filme, numa produção prevista para durar cerca de dois anos, entre 1999 e 2001, totalmente feita na Nova Zelândia. Pelo visual que existe em cada um dos filmes, o registro das paisagens por onde os personagens caminham, lutam e sobrevivem, valeu cada um dos dólares gastos.

Sem contar como o uso de imagens geradas por computador (CGI), que foram um outro marco na história do cinema. E tudo começou quando Jackson convidou seu amigo Richard Taylor, dono da Weta Workshop, para trabalhar com ele no primeiro filme dele num grande estúdio americano, Os Espíritos (1996), da Universal Pictures. Os fantasmas e outros elementos criados digitalmente pela Weta fizeram a diferença no filme. A curiosidade é que foram comprados dezenas de computadores para criar as criaturas digitais de Os Espíritos. E para não vendê-los como equipamento usado, Jackson disse para Richard que tinha uma ideia de como utilizar essa estrutura: “Vamos fazer O Senhor dos Anéis”. E o filme acabou faturando os Oscars de Efeitos Visuais.

Mesmo seguindo uma logística rigorosa para não atrasar, não apenas a produção, como o lançamento do primeiro filme O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, Jackson seguiu à risca o roteiro que fez junto com Fran Walsh e Philippa Boyens. O que acabou significando que os filmes ficaram longos, com mais de três horas de duração. Meses “trancados” dentro da ilha de edição, acabou deixando cada um dos filmes com um ritmo mais acessível: A Sociedade do Anel (2001), de 3h48 de duração, ficou com 2h58; As Duas Torres (2002) passou de 3h43 para uma versão com 2h59 de duração; e O Retorno do Rei (2003) ficou com a edição final com 3h21, de suas 4h11 originais.

E como diz a teoria de Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Foi o que aconteceu com a Trilogia do Anel, quando a Warner decidiu lançar em DVD a versão estendida do primeiro filme, um ano após o lançamento no cinema, nos Estados Unidos. O mesmo aconteceu com os filmes seguintes. A Warner Home Video organizou essas três versões numa caixa especial com 15 discos, lançadas em 2006. Só em 2010, essa mesma edição chegou ao Brasil.

De qualquer forma, você pode curtir esses momentos a mais da Trilogia do Anel a partir desta quinta-feira (22/01), quando a Warner trará as três versões estendidas para os cinemas brasileiros. Cada uma delas será exibida em dias alternados: A Sociedade do Anel, dia 22; As Duas Torres, dia 23; e O Retorno do Rei, dia 24. Nelas, diversos momentos que ficaram na sala de edição foram recolocados para dar a dimensão real do que Peter Jackson tinha imaginado quando decidiu adaptar a obra de Tolkien para o cinema.

Cada um dos filmes tem pouco mais de uma hora de material extra, que acabam desenvolvendo melhor os personagens. Há mais detalhes sobre os hobbits, os presentes que Galadriel dá para cada um dos membros da Sociedade do Anel, os diálogos entre Aragorn e Arwen, flashbacks de Boromir e Faramir, a conversa de Théoden com Éowyn, o campo de batalha do Abismo de Helm, e a cena da morte de Saruman.

Outro ponto importante: essas versões foram remasterizadas e serão exibidas em 4K, o que garante uma qualidade final intensa e memorável. É uma viagem à Terra-Média que vale a pena fazer. Procure em sua cidade o cinema que estiver exibindo a versão especial de O Senhor dos Anéis. Vai valer a pena…

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