Imagine todo mundo vivendo o agora. As pessoas levando a vida em paz. Não há propriedades, todos compartilham o que têm. O sonho de John Lennon revivido. Maravilhoso né? Bom, talvez pudesse não ser tão bom assim. Pelo menos foi essa premissa que levou Vince Gilligan, o badalado showrunner de Breaking Bad e Better Call Saul, a criar a história de sua mais recente série, Pluribus, que vem bombando na Apple TV+ desde que foi lançada em novembro.
Além da ousadia básica de questionar a utopia lennonista (melhor chamar de lennoniana, senão alguém pode achar que é a leninista), Pluribus traz outras subversões bem-vindas. Por exemplo, uma do próprio gênero sci fi, em que Gilligan faz agora estreia promissora. Sim, porque uma invasão extraterrestre ao nosso planeta quase sempre começa com um pé na porta, explosões e muita porrada. Não é o caso aqui.
Mas a lista de originalidades de Pluribus vem acompanhada de elementos conhecidos (e amados) pela legião de fãs do universo Breaking Bad. Um mix pra lá de feliz. Daí as locações no Novo México e suas áridas paisagens de desenho do Papa-léguas. Também o ritmo lento da narrativa, a semiótica das cores e a valorização de detalhes do set marcam presença.
A princípio, a história se passaria em Riverside, California, mas o showrunner já declarou paixão pelos céus de Albuquerque, cidade que ajudou a colocar no mapa turístico do sul dos EUA. Conta-se inclusive que, vira e mexe, alguém joga uma pizza no telhado da casa que era de um certo professor de química chamado Walter White. Os incentivos fiscais para as filmagens lá no estado ajudam muito, claro, mas é melhor pensar que se trata de um caso de amor correspondido.
E já que em time que está ganhando é melhor não mexer muito, talvez o ingrediente conhecido mais apreciado e celebrado é a presença de Rhea Seehorn (cuidado, a pronúncia do nome da atriz é “rei”), a advogada Kim Wexler de Better Call Saul. O criador Gilligan contou que o papel foi concebido para ela.
A bonitona é a protagonista, Carol Sturka, escritora de best-sellers que se vê em oposição, de uma hora pra outra, ao restante da humanidade. A princípio sozinha, precisará interagir e negociar com uma mente coletiva que assimilou a consciência individual dos demais seres humanos. Tarefa nada fácil, já que cada elemento individual tem as mesmas habilidades e integências de todos os outros.
Enfim, tudo dá liga em Pluribus: a originalidade da história, a narrativa, a opção estética e o elenco encabeçado por Seehorn, que já começou a colher os louros antecipados pela visão de Vince Gilligan ao levar, até o momento, tanto o Critic’s Choice quanto o Globo de Ouro de Melhor Atriz em série Dramática.
