Quando assisti pela primeira vez Sete Homens e um Destino (1960), numa sessão de cinema televisiva, sabia da importância da obra de John Sturges pelo comentário que vi no extinto Jornal da Tarde, na coluna Os Filmes de Hoje na TV, escrita pelo saudoso Rubens Ewald Filho. No texto, Rubens dizia que esse grande faroeste clássico tinha origem num filme do qual ele nunca tinha visto, mas conhecia o responsável pela construção desse outro clássico do cinema: Akira Kurosawa e o seu Os 7 Samurais (1954).
Anos depois, consegui assistir ao filme de Kurosawa numa mostra de cinema da Fundação Cultural Japão. Que filme, que fotografia, que atualidade, e claro, uma história cuja essência está presente no filme de Sturges, 16 anos depois. Essa mesma essência pude sentir na versão estrelada por Denzel Washington e dirigida por Antoine Fuqua. Ação, emoção e a luta dos pequenos contra os poderosos.
Há pouco menos de dois anos, me deparei com outro momento do cinema que não conhecia e, para minha surpresa, duas outras versões chegaram recentemente até mim. Estou falando de O Salário do Medo (1953), adaptação cinematográfica do livro do francês Georges Arnaud, publicado em 1950.
A história parecia algo simples: um grupo de desajustados vivendo em um país latino tem a chance de faturar “uma grana boa” se transportarem nitroglicerina até um campo de petróleo em chamas. Não é uma situação heroica. Os personagens superam o medo de morrer por causa da ganância. Serão dois caminhões conduzidos por quatro pessoas. Se, por acaso, alguém não conseguir chegar ao destino, o dinheiro fica para quem sobreviver.
Há dois anos, a Criterion, uma das grandes empresas que mantém vivo o mercado de mídia física para filmes e séries, relançou uma edição especial em Blu-ray de The Wages of Fear — o nosso conhecido O Salário do Medo. Para sua informação, caro leitor, a empresa tem lançado vários filmes clássicos em edições restauradas, com material extra de entrevistas e documentários sobre a produção do filme.
Mas as surpresas não pararam por aí. A Netflix lançou, em 2024, uma nova versão do filme, produzida na França. E ao pesquisar sobre o diretor William Friedkin, o cineasta responsável por Operação França (1971) e O Exorcista (1973), descobri que ele também havia feito uma versão do filme de 1953, com o nome de Sorcerer (1977), batizado no Brasil de O Comboio do Medo.
Pronto, minha curiosidade ganhou proporções de obsessão. Tinha que assistir às três versões do filme, e tinha que começar com o original de Henri-Georges Clouzot, cineasta francês que já conhecia pelo suspense As Diabólicas (1955), que assisti na TV e depois consegui rever em VHS pela VTI-Network.
O Salário do Medo pode ter dado prestígio ao diretor, que ganhou, ao mesmo tempo, a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Urso de Ouro no Festival de Berlim, sendo o primeiro filme a ganhar esses dois prêmios no mesmo ano. A produção, no entanto, não foi das mais tranquilas. A ideia de filmar na Espanha foi descartada quando Yves Montand se recusou a filmar lá devido ao regime político do ditador Francisco Franco. Este foi o primeiro filme de Montand em um papel dramático.
A produção foi transferida para o sul da França, onde a vila latina retratada no filme teve que ser construída do zero. Sem contar que as condições climáticas ajudaram a estourar o orçamento, o que foi mais uma dor de cabeça para o cineasta. Não há uma informação exata sobre a localização do vilarejo da história. Muitos especulam que poderia ser a Venezuela, que começara a exploração de petróleo no final do século 19. Contudo, isso não tem muita relevância em relação às outras duas versões.
O fato é que recebi O Salário do Medo em Blu-ray, depois assisti à versão moderna disponível na Netflix e, acidentalmente, descobri O Comboio do Medo, na plataforma de streaming Darkflix. O que achei de cada um deles você vai saber nos comentários que escrevi sobre cada um dos filmes para esta matéria especial de O Salário do Medo.
O Salário do Medo (1953). Direção de Henri-Georges Clouzot. Com Yves Montand, Charles Vanel, Folco Lulli, Peter Van Eyck e Vera Clouzot.
Se há uma coisa à qual sou muito leal nos filmes do século 20, é à sua duração. Hoje em dia, muitas produções têm mais de 2 horas e meia e quase não conseguem contar uma boa história. Por isso, as 2 horas e 36 minutos de O Salário do Medo foram muito bem aproveitadas, especialmente após saber que a primeira versão do filme teve que cortar várias referências aos Estados Unidos para não parecer uma provocação ou racismo.
Na primeira hora do filme, Clouzot constrói cada um dos personagens, mostrando como suas vidas foram do ruim para o pior, a ponto de sobreviverem em uma vila de um país latino do terceiro mundo. Suas falhas são meticulosamente descritas em suas atitudes, ora covardes, ora canalhas, tentando, cada um à sua maneira, esquecer por que chegaram a esse fundo do poço.
Feito isso, vamos à tragédia. Um incêndio em um campo de petróleo pode devastar a região inteira se os técnicos da empresa petrolífera não conseguirem apagar o fogo. A única forma de fazer isso, como manda o procedimento, é explodir o poço para que a chama se apague. E para isso, nada melhor do que a nitroglicerina, que precisa ser transportada delicadamente, sem agitações ou mudanças bruscas de temperatura.
Uma tarefa para pessoas desesperadas, não apenas pelo dinheiro, mas pela oportunidade de sair daquele lugar e recuperar um pouco do que restou de suas vidas. E assim, o quarteto embarca nessa jornada onde o objetivo não é entregar o explosivo para salvar vidas, mas sobreviver à jornada para permanecer vivo. E, com isso, o filme vai revelando aos poucos as culpas e fragilidades de cada um dos personagens. É uma terrível jornada de descoberta, onde, por mais compaixão que se tenha pelos personagens, suas falhas morais acabam se sobressaindo, revelando como o ser humano é um elemento complicado em qualquer drama.
O Salário do Medo tem um título que parece remeter à jornada desses homens frente a uma missão quase impossível. Na realidade, é o pagamento por entenderem como eles mesmos são como seres humanos: falhos, mesmo quando se sacrificam pelo bem comum. Clouzot constrói uma história que não dá margem para a emoção primitiva, onde a dor é sentida dentro da própria alma. Eles pecaram e terão que passar por um purgatório real para alcançar a redenção. E que purgatório…
O Comboio do Medo (1977). Direção de William Friedkin. Com Roy Scheider, Bruno Cremer, Francisco Rabal e Amidou.
Apesar de não ter feito uma boa bilheteira, Friedkin declarou que este foi o melhor filme que ele dirigiu. Ele mesmo foi conversar com Henri-Georges Clouzot para conseguir sua aprovação para a versão que filmou no interior do México. O Comboio do Medo teve um problema em seu lançamento: uma outra produção chamada Guerra nas Estrelas.
Independente dos altos e baixos nos bastidores, das mudanças de humor de Roy Scheider, dos acidentes com os dublês, da dificuldade de filmar a sequência da ponte, o filme fala sobre as relações humanas dentro de uma caldeira prestes a explodir. Toda a história é semelhante ao trabalho de levar o explosivo para salvar uma região próxima ao campo de petróleo.
Friedkin, ao contrário de Clouzot, colocou a força do filme na origem de cada um dos personagens. Ele detalha o que aconteceu com cada um deles para chegar ao fundo do poço, literalmente, onde tentarão resgatar suas próprias vidas. Não são dramas existenciais, como sugere a primeira versão. São histórias de pessoas comuns que romperam com a sociedade, praticando crimes, de menor ou maior gravidade.
Isso é bem notado em como eles acabam se relacionando quando, independentemente de suas índoles, são obrigados a se unir para sobreviver. A melhor sequência que resume esse clima de tensão entre machos alfa é quando não conseguem seguir viagem devido a uma árvore tombada no meio da estrada. Brigas, discussões, acusações — típicas de uma situação sem saída, até que alguém toma a iniciativa de dar o primeiro passo para resolver o problema.
Essas mudanças fazem parte da história que Friedkin queria contar. Ele não está interessado em heroísmo ou em criar uma nova jornada do herói. O cineasta mostra que toda ação tem reação, mesmo que ela demore a acontecer. Nesse sentido, é um filme tenso e sombrio, onde, por mais que você fique aliviado com o que parece ser o final, o diretor dá mais alguns segundos para você perceber que o pesadelo está apenas começando.
O Salário do Medo (2024). Direção de Julien Leckerck. Com Franck Gastambide, Alban Lenoir, Sofiane Zermani, Bakary Diobera e Sofiane Zermani.
Aqui temos uma adaptação para os tempos modernos, com uma história que se passa no Oriente Médio, região do mundo que começou a ficar mais intensa no final dos anos 60, quando a OPEP — Organização dos Países Exportadores de Petróleo começou a mexer no tabuleiro dos interesses de seus produtores e os interesses dos compradores internacionais. Sim, os lendários e contínuos aumentos do preço do barril de petróleo.
É nesse cenário que assistimos a um grande filme de ação e aventura. Não estou exagerando. O drama pessoal de cada um dos personagens, algo básico nas duas primeiras versões do livro de Georges Arnaud, é deixado de lado para a construção de um filme de muita adrenalina. Não apenas sobre o transporte da nitroglicerina para apagar o incêndio que pode devastar uma comunidade inteira, mas os obstáculos que são colocados no caminho do comboio até o lugar da entrega do explosivo.
Temos o deserto, o terreno acidentado, um vazamento de óleo numa das travessias, além do encontro com facções terroristas, dispostas a tudo contra os infiéis. É uma gama de problemas onde a solução está na agilidade de sair da enrascada antes que o comboio seja comprometido. É uma aventura intensa, e que passa sim, com um pouco de como os personagens principais chegaram até aquele momento.
Sem contar que, pela primeira vez, a grande corporação é exposta de uma forma bem inteligente na história. Com pouco menos de 2 horas de produção, essa versão é a mais diferente do primeiro *O Salário do Medo*. O jovem diretor Julien Leckerck não se preocupou em fazer homenagens aos filmes anteriores, como geralmente acontece. Ele quis mostrar que, mesmo uma história conhecida e contada várias vezes, pode render algo diferente e emocionante.
Essa versão não é anabolizada, com exageros propostos para intensificar as emoções. Assim como as outras, ela tem uma moral própria que coaduna com o destino de cada um dos personagens. Aqui, contudo, é até possível usar o clichê do final mais positivo, honrando a família e a relação de amizade. Algo que cada vez mais tem sido difícil de encontrar no cinema e na televisão.
