Existe uma urgência no cinema de Josh Safdie que parece encontrar em Timothée Chalamet o hospedeiro perfeito. Em Marty Supreme, o diretor marca sua estreia solo (afastando-se da parceria habitual com o irmão, Benny) para contar a história de Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa cuja determinação beira o patológico. O longa não é apenas uma biografia esportiva, mas um estudo sobre a obsessão e o que significa buscar uma “versão suprema” de si mesmo em um mundo que insiste em tratar seus sonhos como algo menor.
CriCríticos acompanhou a coletiva de imprensa com Safdie e Chalamet, onde ficou claro que a fusão entre ator e personagem foi muito além das mesas de pingue-pongue. Da preparação psicológica que remontava ao nascimento do protagonista até a coreografia exaustiva das partidas, a conversa revelou os detalhes de um projeto que o próprio Chalamet define como o seu trabalho mais pessoal até hoje. Acompanhe a seguir alguns destaques da entrevista.
O DNA da precisão

Para Josh Safdie, a escolha de Chalamet não foi apenas uma questão de talento, mas de essência. O diretor buscava alguém que tivesse a “urgência” necessária para personificar um esporte que exige hiperfoco e hiperprecisão. “Acho que o sinal de um grande artista é a expressão verdadeira e o ato de se fundir dentro de uma ficção”, explicou Safdie.
Essa fusão começou muito antes das câmeras ligarem. Chalamet mergulhou em um backstory detalhado que cobria toda a vida do personagem. O diretor revelou que as perguntas do ator eram infinitas, o que ajudou a moldar cada nuance de Marty. No set, essa preparação se traduzia em um “monólogo interno” constante, ditado pelo diretor. “Ele chegava para mim e dizia: ‘Beleza, é nisso que você está pensando agora: eu perdi para fulano no campeonato mundial e vou dar o troco nele’”, relembrou Chalamet. “Foi fundamental ter essa vida interior rica para ele”.
Mais do que um ator: um reflexo animalesco

Chalamet foi enfático ao dizer que, em muitos aspectos, Marty é quem ele era antes de consolidar sua carreira em Hollywood. “Digo isso sem nenhuma ironia: este sou ‘eu’ mais do que nunca”, afirmou o ator. Ele se identifica com a determinação feroz de quem não aceita um “não” como resposta, uma característica essencial para sobreviver a uma indústria movida por rejeições.
Diferente de seus papéis em Me Chame Pelo Seu Nome ou Wonka, o ator descreveu Marty como um personagem mais “animalesco”, alguém que não respeita limites para ser o maior do mundo. Essa falta de filtro moral é algo que Safdie defende como parte do sonho. Para o diretor, a ambição de Marty cria uma espécie de “viseira” que o isola, mas que também o protege. “É um sonho que ninguém respeita. E, pelo fato de ninguém respeitá-lo, isso intensifica a crença dele; de certa forma, isso o endurece e o isola”.
A dança humilhante do tênis de mesa

Um dos pontos mais curiosos da conversa foi a defesa apaixonada de Chalamet pelo esporte. Enquanto o roteirista Ronald Bronstein descreveu o pingue-pongue como algo “humilhante” ou “bobo”, o ator sentiu-se quase defensivo. “Para o Marty, esse é o maior sonho do mundo. Eu sinto que não quero fugir disso, porque quero que outros atores se sintam à vontade para dizer que também estão em busca da grandeza”.
Na prática, essa busca exigiu quatro anos de treinos intermitentes com coordenadores que trabalharam em clássicos como Forrest Gump. As sequências de jogo foram tratadas como coreografias complexas, com trocas de bola memorizadas que chegavam a 16 movimentos por ponto. “Às vezes é uma dança arrítmica estranha. O Josh é muito perfeccionista e nos levou ao limite”, contou Chalamet, mencionando que até atletas olímpicos como o alemão Timo Boll fazem participações para validar o nível técnico do filme.
O sonho como um assalto

Ao final, Josh Safdie sintetizou a mensagem de Marty Supreme como um incentivo à rebeldia contra a passividade moderna. Para ele, o filme funciona, em muitos níveis, como um “filme de assalto” (heist film). “Os sonhos são assaltos ao destino. São uma tentativa de controlar esse destino e roubar a recompensa que existe dentro dele”, filosofou.
O destino de Marty, embora o leve de volta ao núcleo familiar, o faz de uma forma muito mais profunda após a jornada de exaustão e glória. “Ele termina olhando nos olhos do infinito, que é o seu filho”, concluiu Safdie, reforçando que, no universo de seus filmes, a jornada e a obsessão são as únicas coisas que realmente pertencem ao indivíduo.
