Em Dois Procuradores, Sergei Loznitsa abandona a observação documental de seus trabalhos anteriores para mergulhar em uma ficção que, ironicamente, exala uma realidade documental aterradora. Inspirado na obra de Georgy Demidov, o longa nos transporta para a União Soviética de 1937, onde o Grande Terror de Stalin não é apenas um pano de fundo, mas o oxigênio – ou a falta dele – que move a narrativa.
O filme acompanha Alexander Kornyev, um promotor recém-chegado que, ao tentar seguir as leis de um sistema que já as descartou, torna-se a peça defeituosa em uma engrenagem de moer gente. A direção de Loznitsa evoca instantaneamente o espírito de Franz Kafka: aqui, a justiça não é cega, ela é um labirinto deliberado, projetado para que ninguém encontre a saída. A culpa não é algo a ser provado, mas uma condição prévia da existência sob o totalitarismo.
Visualmente, o filme é um exercício de claustrofobia. Através de planos longos e uma câmera que parece pesar toneladas, somos confinados a celas úmidas, corredores intermináveis e escritórios onde o barulho das máquinas de escrever soa como disparos. A escolha de uma paleta de cores desbotada e uma razão de aspecto reduzida reforça a sensação de que o mundo de Kornyev está se fechando sobre ele.
Reparem como o ritmo dentro da prisão, por exemplo, é modorrento de lento, propositalmente.
A atuação central é o ponto de equilíbrio: o protagonista carrega uma retidão que beira a tragédia. É doloroso assistir à sua crença na lei ser confrontada pela arbitrariedade da NKVD, a polícia secreta que não busca a verdade, mas o cumprimento de metas de execução.
Embora situado há quase um século, Dois Procuradores é um filme que respira o agora. Ao expor como burocracias desumanizadas podem validar atrocidades, Loznitsa não fala apenas sobre o passado soviético; ele faz um alerta sobre a fragilidade das instituições e a facilidade com que o “procedimento padrão” pode ser usado como arma contra os Direitos Humanos. Ainda não estamos totalmente livres disso, não?
Não é um filme fácil. É uma experiência cinematográfica exigente, ríspida e necessária. Loznitsa entrega um ensaio sobre como a corrupção sistêmica transforma o idealismo em cinzas, deixando o espectador com uma pergunta incômoda: o que sobra de um homem quando a justiça se torna um mito? Estreia em 5/2 distribuído pela Retrato Filmes.
