O lado implacável da maternidade: Rose Byrne discute o radicalismo e o humor sombrio de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

O lado implacável da maternidade: Rose Byrne discute o radicalismo e o humor sombrio de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Existem filmes que funcionam como um truque de mágica ou um prisma, revelando faces diferentes dependendo de quem os assiste. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You), dirigido e roteirizado por Mary Bronstein, é exatamente esse tipo de obra. Misturando gêneros que vão do drama visceral ao terror psicológico, com pitadas de um humor extremamente ácido, o longa coloca Rose Byrne no centro de uma narrativa que ousa questionar o inquestionável: o limite do amor e do sacrifício materno.

CriCríticos participou da coletiva onde Byrne compartilhou detalhes sobre o processo de criação de Linda, uma personagem que foge de qualquer estereótipo palatável. Entre efeitos práticos ambiciosos e um roteiro que ela descreve como “visualmente impactante”, a atriz revelou como foi mergulhar em uma história que, embora específica em sua tragédia, ressoa com qualquer pessoa que já sentiu o peso esmagador das responsabilidades familiares. O texto contém spoilers.

Descascando as camadas da crise

A preparação para viver Linda foi, nas palavras de Rose, um luxo criativo. Foram semanas de ensaios na mesa da cozinha de Mary Bronstein, “descascando as camadas da cebola” de um roteiro que já trazia no papel a mistura de escuridão e humor – como na descrição de um hamster que tentava atravessar paredes como o Jack Nicholson de O Iluminado.

Para a atriz, o filme destila a natureza implacável da maternidade/paternidade. “A maioria dos pais não passará pelo que a Linda está passando, mas a Mary tem um jeito de mostrar como isso força um pai ou uma mãe a encarar suas próprias limitações”, explicou. O projeto, filmado em apenas 27 dias com efeitos práticos – do teto caindo às ondas do mar -, exigiu que Byrne se preservasse emocionalmente. “Meus filhos não estão nem aí se eu tive um dia longo”, brincou, ressaltando a importância de separar o trabalho pesado do ambiente doméstico.

A atitude “punk” contra os clichês

Um dos pontos mais provocativos do filme é como ele lida com a chamada “linguagem terapêutica”. Rose destacou uma sequência específica em um grupo de apoio onde sua personagem explode contra os bordões de conforto. Para a atriz, Linda está “mandando tudo pelos ares” ao desafiar a ideia de que a culpa nunca é dos pais.

“É uma atitude tão punk; ela está forçando todo mundo a reconhecer o lado mais sombrio dessa conversa”, afirmou. Byrne defende que o filme é radical ao mostrar uma mãe que, em meio a uma crise profunda com um filho com necessidades especiais, atua mais como cuidadora do que como alguém que sente alegria. “As mães não ‘têm permissão’ para se sentirem assim. Mary está defendendo que você pode, sim, se sentir assim e ainda amar seu filho. É algo desafiador para o público vivenciar”.

A corda bamba entre a comédia e o medo

O equilíbrio tonal de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é o que Rose chama de “corda bamba da comédia”: quanto maior o risco e o absurdo da situação, mais engraçado – e desconfortável – o momento pode ser. Seja contracenando com A$AP Rocky ou lidando com as metáforas visuais do roteiro, ela buscou interpretar tudo da forma mais real possível para que o humor servisse como um alívio necessário ao tema pesado.

Essa busca pelo desafio constante parece ser o motor atual de sua carreira. Aos 46 anos, Rose Byrne reflete sobre a necessidade de sentir medo em cada novo projeto. “Você precisa fracassar para, então, se redescobrir. O fracasso é tão importante quanto o sucesso para entender o que funcionou”, refletiu. Com sua própria produtora e um diálogo criativo em constante evolução, ela segue fugindo dos rótulos e buscando a autonomia que inspira suas colegas de profissão. “Eu quero constantemente me desafiar e sentir que estou no limite todas as vezes”.

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