As primeiras reações ao trailer de O Morro dos Ventos Uivantes foram em grande parte negativas. Linda e talentosa, Margot Robbie não é nem de longe a escolha ideal para interpretar a protagonista do livro de Emily Brontë tanto em idade, Cathy é bem mais jovem do que a atriz, quanto em aparência, a heroína do livro tem olhos e cabelos castanhos. Recém-elogiado por Frankenstein, Jacob Elordi também estaria longe da aparência de Heathcliff, descrito no livro como “moreno como um cigano”. E o figurino de época não seria mais fora da época com seus tecidos sintéticos, brilhos e modelagens.
Em resposta às críticas, a diretora Emerald Fennell declarou que fez “uma versão” de O Morro dos Ventos Uivantes, livro de Emily Brontë lançado em 1847 que chegou ao Brasil somente em 1938 e já foi para as telas mais de uma vez.
A controvérsia é bem-vinda e adequada ao material de origem. Parte romance, parte história sobrenatural, O Morro dos Ventos Uivantes nunca foi manso. Seus protagonistas não são boas pessoas, não tratam bem aos outros ou a si mesmos, a história, geralmente reduzida à primeira parte nas telas, é um mergulho sem volta em sentimentos selvagens e vingança sem limites com elementos góticos numa simbologia de perda, saudade, amor correspondido mas não realizado e desejo. Não é, nem nunca foi, um livro para a Biblioteca das Moças.
Se o elenco – incluindo a tailandesa Hong Chau como Nelly Dean, uma das personagens mais importantes da história – e o figurino de Jacqueline Durran causaram barulho, a fotografia de Linus Sandgren (O Primeiro Homem) faz justiça à natureza das charnecas de Yorkshire, no norte da Inglaterra. Sinônimo e causa de isolamento, assoladas por ventos frios e tempestades constantes, o cenário é tão personagem quanto Cathy e Heathcliff. Já no trailer vemos como o clima e a vastidão engolfam os personagens.
Fennell também carregou nas tintas no aspecto sexual da história. Antes mesmo da primeira imagem, o público é assaltado pelos sons de um homem ofegante e rangidos que evocam um ato sexual, só para se ver jogado na cena de uma morte. Ao longo do filme, sexo e sangue trabalham em parceria para compor o quadro do que Fennell e muitos outros chama de “o maior romance de todos os tempos”, o que é, simultaneamente, um tremendo exagero e uma descrição adequada. Não há dúvidas de que Cathy e Heathcliff se amam com voracidade. Nem de quão destrutivo esse relacionamento é para eles e para todos os que os cercam.
E, passados os reparos quanto à idade e aparência do elenco, nesse quesito Fennel, Robbie e Elordi acertam em cheio. O Morro do Ventos Uivantes é uma produção carregada, seja no peso da natureza, seja na mistura de sentimentos de posse, desejo, paixão, amor, obsessão e tudo o mais que compõe a complexidade da união entre Cathy, a filha da família Earnshaw, falida mas socialmente adequada, e Heathcliff, o garoto encontrado na rua e mantido como “um bicho de estimação” da menina. Uma união socialmente impossível, mas, como Cathy percebe, “ele é mais eu do que eu mesma. E seja lá do que nossas almas são feitas, a dele e a minha são idênticas”.
Qualquer crítica quanto à aparência de Elordi é também apagada quando Heathcliff retorna de três anos de sumiço, agora não mais o servo da casa, mas um homem bem-sucedido. Seja lá o que se passava na cabeça de Emily Brontë em sua vida isolada ao criar Heathcliff, Elordi o personifica nessa cena. Não à toa, seu retorno faz Cathy colocar toda a vida em risco. A química entre Robbie e Elordi funciona à perfeição e Alison Oliver é assustadora como Isabella, nunca deixando claro se seu comportamento é inocente ou completamente insano.
Não é, certamente, uma adaptação purista do livro, mas uma versão que assalta os sentidos e não esquece os elementos de sua origem. Quando Heathcliff pede a Cathy que o assombre após a morte, não há dúvidas do que ele sente e de sua dedicação a esse sentimento. E é isso, não o esnobismo de Cathy ou a violência de Heathcliff que têm mantido essa história no coração do público. Estreia em 12/2 distribuído pela Warner.
