Reimaginar uma obra que já passou pelas páginas de um livro, pelos palcos da Broadway e pelas telas do cinema exige um propósito claro. Para o diretor Bill Condon, o “porquê” desta nova versão de O Beijo da Mulher Aranha reside na atemporalidade de Manuel Puig. Segundo o cineasta, o autor estava décadas à frente de seu tempo ao discutir fluidez de gênero e a pureza de um amor não transacional.
CriCríticos esteve na coletiva desta produção que equilibra o rigor histórico de uma ditadura latino-americana com o brilho escapista dos musicais dos anos 40. O resultado é um mosaico de depoimentos de Bill Condon, Jennifer Lopez, Diego Luna e Tonatiuh, que revelam o peso emocional – e físico – de dar vida a personagens que buscam, acima de tudo, a dignidade de serem vistos.
O musical como sonho e refúgio

Para Jennifer Lopez, o projeto foi o encontro de sua carreira com os sonhos de infância. Ao interpretar a tríade de personagens Ingrid Luna, Aurora e a Mulher Aranha, ela pôde finalmente explorar o gênero musical de forma plena.
“O Bill me enviou o roteiro e, no minuto em que o li, fiquei impressionada por ver que todas as coisas que eu imaginava quando era garotinha estavam ali. Eu pude cantar, dançar, atuar e interpretar uma grande estrela de cinema”, revelou Jennifer.
Ela explicou que, embora interpretasse três figuras, a essência era única: “O foco foi encontrar pequenas nuances. A Mulher Aranha só quer um beijo. A Aurora está procurando por seu verdadeiro amor. E o Molina está morrendo de vontade de ser amado e visto. No centro de cada uma, havia núcleos emocionais diferentes, mas todas estavam em busca de amor”.
A transformação de Tonatiuh e a herança de Diego

O papel de Molina exigiu de Tonatiuh uma entrega visceral. Para viver a realidade de uma cela sob uma ditadura, o ator perdeu 20 quilos em apenas 50 dias. Sua construção de personagem buscou referências no passado de Hollywood: “Fiquei pensando em qual estrela daquela época vivia ‘no armário’ e em profunda dor, e instantaneamente pensei em Montgomery Clift. Tentei até ‘roubar’ o icônico contorno de cabelo de Errol Flynn”, contou ele entre risos, antes de retomar o tom sério sobre a relevância da obra: “É muito emocionante pela dignidade que o filme traz para as comunidades latina e LGBTQIA+”.
Ao seu lado, Diego Luna trouxe a bagagem de quem cresceu no México e conviveu com os reflexos das ditaduras vizinhas. Para ele, o filme é uma homenagem ao teatro e à resistência política. “Abrir-se parece loucura quando você está em uma cela, precisando se proteger de tudo. Mas o filme diz que a solução está na reação oposta: em ser vulnerável”, refletiu Diego. Ele relembrou sua própria história com movimentos sociais em 1994 e como isso alimentou seu personagem, Valentín: “O cinema e a cultura pop podem ser um escape, mas também um espelho que ajuda você a transitar pela realidade”.
Uma meta-narrativa entre a realidade e a fantasia

O diretor Bill Condon destacou que, nesta versão, os números musicais não são interrupções, mas partes fundamentais da narrativa da cela. “O musical foi inventado para este projeto. Eu tinha receio de que o público rejeitasse números musicais que interrompessem a história dos prisioneiros. Por volta dos 20 minutos, a ficha cai para o público: não é uma interrupção, estamos aprendendo mais sobre o Molina através do que ele conta”.
Essa conexão entre realidade e fantasia foi intensificada pela filmagem cronológica, que permitiu aos atores viverem o crescimento da amizade em tempo real. “Rodamos dois filmes: um sobre a experiência linda de fazer cinema em NY; e depois fomos para uma prisão no Uruguai, onde não vimos o sol por duas semanas”, detalhou Diego Luna.
Tonatiuh concluiu com um relato emocionante sobre a despedida do set: “Construímos a relação momento a momento. Chegou ao ponto em que, quando eu estava me despedindo, as lágrimas simplesmente fluíram porque eu não queria dizer adeus ao Diego. Nós realmente precisávamos um do outro para conseguir atravessar aquilo”. Jennifer Lopez, cujo rosto em fotos era o “escapismo” de Molina na cela, arrematou: “Eles estavam ‘amaldiçoados’ na prisão e queriam muito o amor. No fim das contas, todos estavam vivenciando a mesma busca pela sensação de ser amado”.
