Crítica | Filme | Jay Kelly

Crítica | Filme | Jay Kelly

Noah Baumbach sempre foi hábil para dissecar as neuroses da classe média intelectual americana. Em Jay Kelly, ele expande seu escopo para a nata de Hollywood, colocando George Clooney no centro de um ensaio sobre a fama, o tempo e a solidão que o sucesso não consegue preencher. O resultado, no entanto, é uma obra que oscila entre a genialidade melancólica e a autoindulgência visual.

O grande trunfo do longa reside no aproveitamento cirúrgico da imagem pública de Clooney. Aqui, o ator não apenas interpreta Jay Kelly; ele parece confrontar sua própria lenda. É uma atuação contida, onde o charme que o consagrou é usado como uma máscara cansada. Ao seu lado, Adam Sandler entrega uma performance equilibrada, servindo como o âncora pé-no-chão que impede o filme de flutuar para longe da realidade emocional. A química entre os dois é, sem dúvida, o ponto mais alto da projeção.

Apesar do talento envolvido, Baumbach parece ter trocado sua habitual acidez por um tom mais adocicado e contemplativo. Ao situar a jornada de Jay na Europa, o diretor flerta com referências de Fellini, mas sem a mesma força disruptiva.

A narrativa sofre com um ritmo irregular, perdendo-se em subtramas familiares que pouco acrescentam ao arco principal e em situações de comédia que soam deslocadas do tom introspectivo da obra. Em certos momentos, o roteiro parece mais preocupado em criar diálogos perfeitamente polidos do que em permitir que os personagens respirem de forma humana e genuína.

Curiosamente, é quando o filme decide “parar de tentar” que ele finalmente acerta o alvo. A sequência final na Toscana é belo e emocional. O momento de ruptura em que o protagonista encara o espectador é o golpe que justifica o ingresso, transformando uma crise de meia-idade comum em um comentário potente sobre o que significa ser observado o tempo todo e, ainda assim, não ser visto por ninguém.

Jay Kelly é um cartão-postal com uma mensagem melancólica escrita no verso. Embora falte o vigor dramático de obras anteriores do diretor, o filme se sustenta pelo carisma magnético de seu elenco e por um encerramento que ecoa na mente muito após os créditos subirem. Sim, estrou na Netflix faz tempo. Desculpe a demora…

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