Crítica | Filme | Orwell 2+2=5

Crítica | Filme | Orwell 2+2=5

Novo trabalho de Raoul Peck mergulha na vida e obra de George Orwell para mostrar o quanto sua análise do perigo do totalitarismo segue não apenas atual, mas cada dia mais essencial.   

Antes de seu pseudônimo se transformar em adjetivo, Eric Arthur Blair tinha a vida de um garoto da classe média britânica. Educado em Eton, o colégio dos bem-nascidos e da aristocracia, ele chegou à idade adulta como funcionário do governo britânico, então ainda dono de um enorme império colonial. A experiência deu origem ao livro Dias na Birmânia e à consciência dos efeitos do imperialismo, do totalitarismo e da divisão de classes.

Em Orwell: 2+2=5, o diretor Raoul Peck (Eu Não Sou Seu Negro) mostra como essa experiência foi essencial à formação do jornalista e escritor que mais tarde assumiria o pseudônimo George Orwell e legaria ao mundo o clássico 1984 e seu nome como definição de estado totalitário que exerce total controle e vigilância sobre seus cidadãos.

Com textos de livros, cartas e ensaios de Orwell interpretados por Damian Lewis (Homeland), o documentário reúne cenas históricas para mostrar uma tapeçaria de elementos que se repetem no tempo e no espaço de forma assustadora. Governos de diferentes épocas, continentes e naipes políticos se revelam similares no uso da palavra como justificativa para a ação armada e para apresentar o derramamento de sangue de forma palatável, na contenção da imprensa e da liberdade de expressão, no controle da informação, no aprisionamento de cidadãos e no puro exercício do poder. Agrupando esses recortes por temas e entremeando com cenas de adaptações de 1984 e A Revolução dos Bichos, o outro clássico de Orwell sobre política, poder e o abuso dele, Peck mostra como a guerra na Ucrânia, o assassinato do jornalista saudita Jamal Khasghoggi, o Khmer Vermelho, a proibição e queima de livros e discursos de governantes de vários países, entre várias outras imagens, incluindo os bombardeios de Tóquio e Berlim durante a Segunda Guerra Mundial, confirmam a análise visionária de Orwell sobre a natureza do poder.

O documentário também alerta para as formas como o poder chega ao último recesso da resistência. Partindo do momento em que Winston, o protagonista de 1984, tem de provar que acredita que 2+2=5 porque é isso que a autoridade constituída diz, independente de todas as evidências contrárias, o documentário mostra não apenas como o poder é obtido e mantido, mas como as pessoas podem se tornar propriedade do poder quando permitem que esse mesmo poder defina o que é real, deixando de lado o raciocínio próprio e a informação concreta, em especial quando há simpatias envolvidas.  “Todos acreditam nas atrocidades do inimigo, mas não naquelas cometidas por seu próprio grupo, sem nem sequer se preocupar em examinar as evidências”, aponta Orwell.

Um tanto desorientador na mistura de trechos de ficção e realidade, imagens do passado e do presente, Orwell: 2+2=5 não é, definitivamente um passatempo, mas um forte alerta do assalto que a informação e a realidade sofrem diariamente e do quanto devemos ficar atentos. E isso dito por um homem que escreveu suas últimas palavras em 1949. Estreia em 12/2 distribuído pela Alpha Filmes.

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