Crítica | Filme | Yes

Crítica | Filme | Yes

O cinema de Nadav Lapid (Ahed’s Knee) nunca foi feito para confortar, e em Yes (Ken), o diretor israelense eleva sua acidez a um nível quase insuportável. O longa é uma sátira selvagem sobre a apatia, o nacionalismo e o papel do artista em tempos de barbárie, utilizando uma estética de “pesadelo pop” para confrontar a realidade atual de Israel.

A trama acompanha Y., vivido por Ariel Bronz (que estreia com uma intensidade maníaca), e Jasmine, interpretada por Efrat Dor (O Caçador e a Rainha do Gelo), um casal de artistas falidos que sobrevive animando festas da elite de Tel Aviv. O título é uma ironia cruel: para sobreviver naquele ecossistema, eles aprenderam que “sim” é a única resposta permitida.

O conflito central explode quando Y. recebe a tarefa de compor o novo hino nacional – uma canção que celebra explicitamente a destruição total. A partir daí, o que começa como uma comédia de costumes decadente transforma-se em um estudo sobre a falência moral. Lapid não oferece heróis; ele filma personagens que trocam sua consciência por um lugar à mesa, enquanto o som de bombardeios reais serve como trilha sonora de fundo para suas danças frenéticas.

Visualmente, o filme é uma experiência sensorial agressiva. A câmera de Shai Goldman (Sinônimos) é nervosa, claustrofóbica e não dá trégua ao espectador. O uso de cores vibrantes e luzes pulsantes nas festas da elite cria um contraste propositalmente feio com o deserto ético em que os personagens caminham.

Há uma cena específica, envolvendo uma versão em hebraico de um sucesso pop internacional, que encapsula perfeitamente a proposta de Lapid: o uso do ridículo para expor o horror. É um cinema que flerta com o experimentalismo e o absurdo, lembrando em certos momentos o tom grotesco de obras como O Triângulo da Tristeza, mas com uma carga política muito mais direta e urgente.

Diferente de obras que buscam o distanciamento histórico, Yes (Ken) é um filme do presente imediato. O roteiro, também assinado por Lapid, não tem medo de ser didático ou repetitivo em suas denúncias, o que pode exaurir parte do público. No entanto, é essa mesma insistência que torna a obra tão poderosa. Não se trata apenas de um filme sobre o conflito, mas sobre como as pessoas “comuns” conseguem continuar sorrindo enquanto o mundo ao redor desmorona.

Yes é uma obra exaustiva, barulhenta e profundamente raivosa. Nadav Lapid entrega um filme que é um convite ao mal-estar, obrigando o público a encarar a cumplicidade silenciosa que mantém sistemas opressores de pé. É um cinema necessário, mas que recusa terminantemente ser amado. Estreia em 12/2 distribuído pela Imovision.

Deixe um comentário