In Memoriam – Bud Cort (1948 – 2026)

In Memoriam – Bud Cort (1948 – 2026)

Bud Cort foi um daqueles atores raros cuja presença bastava para deslocar o eixo emocional de um filme. Dono de uma fisicalidade singular – magro, olhar oblíquo, algo de ave noturna – e de uma sensibilidade afinada para personagens à margem, Cort construiu uma carreira marcada pela estranheza, pela ironia melancólica e por um humanismo discreto. Sua morte, aos 77 anos, após longa doença, encerra um capítulo fundamental do cinema americano dos anos 1970, especialmente daquele orbitado pela liberdade criativa de Robert Altman.

Nascido Walter Edward Cox, em 29 de março de 1948, em Rye, Nova York, Bud Cort iniciou sua trajetória artística longe dos holofotes, como figurante e comediante de stand-up nos clubes do circuito alternativo nova-iorquino. Foi ali que chamou a atenção de Robert Altman, cineasta decisivo para sua carreira e para toda uma geração de atores e filmes que redefiniram Hollywood no início da década de 1970.

Altman escalou Cort em três de seus filmes mais emblemáticos lançados em 1970: MASH, Quando os Homens São Homens e Voar é para os Pássaros, onde assumiu o papel principal. Nessas obras, Cort já surgia como uma figura emblemática do “anti-herói” altmaniano: deslocado, irônico, jovem demais para se encaixar no mundo adulto e inteligente demais para aceitá-lo sem questionamento. O cinema de Altman, com sua recusa ao heroísmo tradicional e sua atenção aos personagens excêntricos, ofereceu a Cort o espaço ideal para revelar seu talento.

Mas foi fora do círculo direto de Altman que Bud Cort entregaria a atuação que definiria seu nome para sempre. Em Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971), dirigido por Hal Ashby, Cort interpretou Harold Chasen, um jovem obcecado pela morte, que simula suicídios elaborados e frequenta funerais por puro tédio existencial. O encontro com Maude, uma sobrevivente do Holocausto vivida por Ruth Gordon, transforma o filme – e o personagem – numa das mais delicadas meditações sobre a vida, o amor e a liberdade já feitas pelo cinema americano.

A atuação de Cort é o eixo silencioso do filme. Ele nunca força a excentricidade de Harold; ao contrário, constrói o personagem com economia, humor seco e uma tristeza quase infantil. Ao lado da energia vital e anárquica de Ruth Gordon, Cort funciona como contraponto e espelho, permitindo que o filme trate de temas como morte, trauma e desejo sem jamais perder a leveza. Inicialmente incompreendido pelo público e pela crítica, Ensina-me a Viver tornou-se, ao longo dos anos, um clássico absoluto, impulsionado por sessões de meia-noite, pela trilha sonora de Cat Stevens e por um final que virou símbolo da celebração da vida.

Paradoxalmente, o papel que eternizou Bud Cort também o aprisionou. Estereotipado como o “estranho sensível”, o ator passou anos recusando papéis que reforçassem essa imagem, incluindo um convite para Um Estranho no Ninho. Como ele próprio reconheceria mais tarde, o status de ator cult foi ao mesmo tempo uma consagração e um obstáculo.

Ainda assim, Cort construiu uma filmografia ampla e irregular, passando por filmes como Fogo contra Fogo (1995), Dogma (1999), A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), além de séries de televisão e trabalhos de dublagem. Sua carreira foi interrompida brutalmente por um grave acidente automobilístico em 1979, do qual se recuperou após anos de cirurgias – um episódio que apenas reforçou a dimensão resiliente de sua trajetória.

Quando Ensina-me a Viver foi redescoberto internacionalmente, especialmente na Europa, Bud Cort pôde finalmente perceber a extensão de seu impacto. Homenageado no Festival de Karlovy Vary, recebeu o tipo de reconhecimento que raramente chega aos atores que trabalham à margem do estrelato convencional: o afeto duradouro do público.

Bud Cort não foi um astro no sentido clássico, mas foi algo talvez mais raro: um intérprete que deu forma a uma sensibilidade inteira do cinema moderno. Em seus personagens tímidos, excêntricos e vulneráveis, permanece viva a ideia de que o cinema também pode ser um espaço para os que não se encaixam – e, justamente por isso, nos representam melhor.

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