Crítica | Série | Filhos do Chumbo

Crítica | Série | Filhos do Chumbo

A primeira cena dessa série polonesa já mostra que o revisionismo histórico, após a queda da União Soviética – da qual a Polônia foi uma das primeiras vítimas logo após a Segunda Guerra Mundial – não poupa nenhuma aresta. Uma mulher é ameaçada na ponta de uma arma por uma figura uniformizada, no meio de um terreno baldio. Ele engatilha a arma, aponta para a mulher e pergunta friamente se ela tem medo dele. A resposta, sem hesitação, é simplesmente: “sim”. A cena escurece e ouve-se o disparo de um tiro.

A história se passa em 1974, na região da Alta Silésia, um importante polo industrial da Polônia controlado pelo Estado socialista. A médica Jolanta Wadowska-Król (Joanna Kulig) percebe que muitas crianças da região estão exibindo sintomas neurológicos e atrasos no desenvolvimento. Após exames, ela descobre que os altos níveis de chumbo no sangue dessas crianças eram resultado da contaminação ambiental provocada por fundições e indústrias locais.

Para aumentar a produtividade, foi determinada a remoção dos filtros industriais, sem que houvesse qualquer tipo de preocupação com a saúde da população. Próximo de receber o premier soviético Leonid Brejnev para uma visita à Polônia e à região da Alta Silésia, tudo o que o presidente do Partido Comunista do país não queria era ser acordado com qualquer tipo de problema.

O problema surge quando a Dra. Jolanta começa a analisar uma série de casos de crianças ao redor do polo industrial, sofrendo com convulsões, distúrbios motores e problemas neurológicos. Numa análise mais profunda, a médica descobre níveis altíssimos de chumbo no sangue delas, criando não apenas reações físicas, mas também evidentes atrasos cognitivos.

Tudo começou quando ela tentou descobrir o paradeiro de um menino que deveria ter sido encaminhado ao hospital pediátrico da cidade, mas acabou indo parar no centro médico para adultos, onde faleceu. Jolanta não se conforma com o que aconteceu e decide revelar suas descobertas para as autoridades, sugerindo que a primeira medida seria retirar as crianças para um local mais saudável.

Embora isso tenha ocorrido, nada concreto em relação aos resíduos tóxicos emitidos pelo polo industrial foi feito. Para um Estado orgulhoso de suas conquistas, como voltar atrás em uma decisão mais política do que técnica? E, claro, silenciar da melhor forma possível a fonte dessas “falsas” informações sobre a saúde das crianças da Alta Silésia. Uma situação bem clara: um drama real de como a ciência e a verdade médica colidiram com um Estado que preferia negar o problema para proteger a imagem do Partido Comunista e manter a produção industrial, com autoridades tentando abafar o caso e silenciar denúncias.

Num primeiro momento, seria fácil comparar a crise polonesa com o drama da Ucrânia em 1986, quando a usina nuclear de Chernobyl pegou fogo. Especialmente pelo ponto de vista da repressão do Estado soviético nesses dois momentos históricos. No primeiro episódio da premiada série Chernobyl (HBO Max), a primeira reunião do Comitê local do PC, o chefe partidário diz que nenhuma informação sobre o incêndio poderia sair da cidade. Um tradicional instrumento de um Estado totalitário: censura e prisão para quem falar.

Na realidade, as duas crises foram dramas baseados em eventos reais, nos quais falhas institucionais, sigilo estatal e negligência tiveram consequências humanas graves. Existem, claro, diferenças estruturais entre esses dois pesadelos históricos vividos na extinta União Soviética. Chernobyl trata de um dos piores desastres industriais da história moderna – um acidente de reator nuclear com impacto transnacional e consequências políticas globais – enquanto Filhos do Chumbo foca em uma crise ambiental e de saúde pública regional, significativa e devastadora para quem viveu.

É a dimensão humana e o embate com o poder que tornam as narrativas comparáveis, não a magnitude física do desastre em si. Outro ponto de comparação entre as duas produções é a busca pela autenticidade nas locações. A produção da HBO foi para a Lituânia, na cidade de Ignalina, onde existe uma usina com o mesmo tipo de reator nuclear semelhante ao de Chernobyl, que serviu como cenário para a minissérie.

Já os produtores de Filhos do Chumbo contaram o drama vivido pela Dra. Jolanta em ambientes industriais reais na região da Alta Silésia. Para substituir a antiga fundição, que foi fechada em 2008, foi utilizada a Central Termoelétrica de Zasbrze. As locações foram escolhidas por remeter à paisagem industrial pesada da época, incluindo fábricas e estruturas industriais reais na região, mas não necessariamente o complexo específico que existia em Szopienice, que ainda está parcialmente abandonado hoje.

Acredito que o grande diferencial da série seja a forma de contar esse drama sobre o que acontece quando uma pessoa conscienciosa decide ir contra as regras estabelecidas por um Estado ditatorial para salvar vidas. A série não mostra apenas a mobilização da Dra. Jolanta para conseguir salvar as crianças da cidade, mas toda a violenta pressão que o Estado exerce sobre pessoas com verdades inconvenientes. Há um momento em que existe a sugestão de prender os filhos da doutora para convencê-la a abandonar sua “suposta bravata”. Já vi isso acontecer em diversas delações de casos de corrupção, onde a chantagem foi mais forte do que a necessidade de revelar a verdade.

Filhos do Chumbo é uma excelente oportunidade para entender os mecanismos do poder destrutivo de um Estado totalitário. Se, num primeiro momento, ele parece capaz de calar as vozes opositoras, em outro, como bem é narrado na minissérie, a união em torno de um objetivo se revela mais forte do que armas ou repressão.

Uma série que revisita a história, com seus dramas, paixões e terrores, tudo isso bem dosado em seis magníficos episódios. Na Netflix.

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