Um ensaio sobre Doctor Who

Um ensaio sobre Doctor Who

A Era Disney de Doctor Who

A parceria entre a Disney e a BBC não atingiu as expectativas, afastando a possibilidade de Doctor Who se tornar um fenômeno de audiência global como muitos imaginavam.

A BBC abriu as portas para que a Disney levasse sua criação dos anos 1960 para o streaming global. A expectativa era alta, mas a nova fase de Doctor Who não se transformou no sucesso mundial que muitos previam.

De um lado, um personagem clássico, que se tornou ainda mais popular após ser adaptado para o século 21. De outro, um estúdio que moldou o imaginário da fantasia por décadas. Essas duas forças criativas uniram-se para colocar o lendário Senhor do Tempo no centro das produções do Disney+. O que poderia dar errado?

Deu.

Ao analisar as decisões recentes da Disney em relação às franquias sob seu controle, percebe-se um padrão. Muitas séries se mostram confusas, sem o mesmo brilho que marcou os grandes sucessos cinematográficos do estúdio. Isso leva a uma pergunta inevitável: qual é, afinal, o objetivo criativo da empresa hoje?

A produção de Walt Disney: entretenimento familiar e inovação

Enquanto Walt Disney esteve à frente da companhia, a produção de filmes voltados ao entretenimento familiar era tratada com extremo cuidado. Mesmo em obras de aventura, havia um compromisso claro com a narrativa e imaginação. Um exemplo emblemático é Vinte Mil Léguas Submarinas (1954), adaptação do romance de Jules Verne publicado em 1870.

Esse filme marcou a primeira grande superprodução cinematográfica da Disney. O elenco reunia Kirk Douglas, James Mason, Peter Lorre e Paul Lukas, sob a direção de Richard Fleischer, filho de Max Fleischer, criador dos primeiros desenhos animados do Super-Homem. A história combinava aventura com uma reflexão sobre militarismo e paz mundial – temas complexos, tratados de forma acessível para toda a família, sem polêmicas explícitas.

A Era Eisner e a expansão do público

Quando Michael Eisner, ex-presidente da Paramount Pictures, assumiu a Walt Disney Company, sua gestão passou a equilibrar entretenimento e retorno financeiro. Ao seu lado, Jeffrey Katzenberg revitalizou o setor de animação com projetos que renderam milhões e redefiniram a animação moderna: A Pequena Sereia (1989), A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992) e O Rei Leão (1994).

Paralelamente, Eisner apostou na produção de filmes voltados ao público adulto, criando selos como Touchstone Pictures e Hollywood Pictures. O primeiro lançamento da Touchstone foi Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984), com Tom Hanks, Daryl Hannah e John Candy. O sucesso abriu caminho para produções ousadas, como Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), que combinava animação e atores com uma sofisticação técnica inédita desde Mary Poppins (1964).

Nos anos 1980, vieram comédias populares e dramas prestigiados. Filmes como Três Solteirões e um Bebê (1987), Namorada de Aluguel (1987) e Os Últimos Durões (1986) dividiram espaço com obras indicadas ao Oscar, como A Cor do Dinheiro (1986), Bom Dia, Vietnã (1987) e Sociedade dos Poetas Mortos (1989). Já nos anos 1990, Uma Linda Mulher (1990) consolidou a capacidade da Disney de dialogar com diferentes públicos.

De Eisner a Iger: a Era das Aquisições

Após o fim da Era Eisner, período amplamente analisado no livro Disney War, de James B. Stewart, Bob Iger assumiu o comando da empresa. Sua diretriz foi clara: transformar a Disney em uma megacorporação de entretenimento global.

Somente neste século, a empresa adquiriu a Fox Family Worldwide, o estúdio dos Muppets, a Pixar, a Marvel, a Lucasfilm e, mais recentemente, a 20th Century Fox. Com esse histórico, era natural imaginar que a Disney teria uma estratégia consistente tanto para o cinema quanto para a televisão, especialmente no mercado de streaming.

Não é neste texto que se pretende analisar os fracassos comerciais de séries da Marvel ou de Star Wars. O foco aqui é a tentativa de colocar o Senhor do Tempo britânico sob a órbita do Mickey Mouse.

Trazer Doctor Who para o Disney+ parecia, em um primeiro momento, uma decisão acertada. A série ganharia alcance global, recursos técnicos e uma vitrine poderosa. No entanto, as decisões criativas tomadas ao longo do processo acabaram comprometendo esse potencial.

Um dos principais deslocamentos foi o enfraquecimento da ficção científica, elemento central da série desde 1963, e reforçado a partir da retomada em 2005. Em seu lugar, a fantasia passou a funcionar como motor principal das histórias, alterando o equilíbrio tradicional da narrativa.

O fenômeno Doctor Who no Brasil

No Brasil, a trajetória da série é peculiar. A fase iniciada em 2005 começou a ser exibida pelo canal People+Arts, do grupo Discovery. A audiência era boa para os padrões da TV paga, embora distante do impacto da TV aberta.

Quando Mark Gatiss, roteirista da série e criador de Sherlock, veio ao Brasil para uma série de palestras, um fenômeno chamou atenção. Tanto eu quanto meu colega Rogério Victorino, do site CriCríticos, percebemos que Doctor Who havia formado uma base expressiva de fãs jovens. Isso se devia, principalmente, à exibição da série pela TV Cultura.

Além disso, a produção passou por diversos canais pagos, teve lançamentos em DVD pela Log-On e pela Paris Filmes, e chegou a ter seu catálogo completo disponível no streaming +SBT. Hoje, no entanto, apenas as duas temporadas estreladas por Ncuti Gatwa estão acessíveis no Disney+.

Audiência, expectativas e recepção crítica

Quando Doctor Who passou a ser distribuída internacionalmente pelo Disney+ em 2023, a expectativa era de crescimento significativo de público. Isso, porém, não se concretizou. Os números de audiência, tanto no Reino Unido quanto no mercado internacional, ficaram abaixo dos anos pré-Disney, com um declínio perceptível na 15ª temporada.

Entre fãs e críticos especializados, o consenso é que as mudanças feitas nessa fase divergem do tom estabelecido a partir de 2005. Muitos apontam que os roteiros passaram a enfatizar temas sociais e identitários de forma mais direta e didática, em detrimento da construção orgânica do conflito dramático.

Política, metáfora e mudança de linguagem

A ideia de que Doctor Who se tornou politicamente engajada apenas recentemente não se sustenta. Desde os anos 1960, a série discute colonialismo, autoritarismo, guerras e desigualdade, sempre valorizando ciência, empatia e cooperação. A diversidade racial e cultural também esteve presente muito antes de isso se tornar padrão na televisão britânica.

A diferença está na forma. Historicamente, esses temas eram trabalhados por meio de metáforas de ficção científica, integradas à narrativa. Algo semelhante ao que Gene Roddenberry fez em Jornada nas Estrelas, usando mundos alienígenas para refletir conflitos humanos.

Na era Gatwa/Disney, essa abordagem se torna mais explícita. A representatividade ocupa o centro da narrativa, com o primeiro Doutor negro protagonista, personagens LGBTQIA+ e histórias focadas em identidade e pertencimento. Não se trata de ruptura ideológica, mas de uma mudança de linguagem: a metáfora cede espaço ao discurso direto.

O excesso de discurso e o enfraquecimento do drama

Essa mudança se reflete nos diálogos. Uma crítica recorrente aponta o uso frequente de discursos explicativos, nos quais personagens verbalizam conflitos morais e mensagens sociais de forma direta. Em alguns casos, situações que antes seriam resolvidas por ações e consequências dramáticas passam a ser solucionadas no plano do discurso.

O resultado, em certos episódios, é um tom quase pedagógico. As mensagens sobre preconceito, empatia ou exclusão são apresentadas com pouca ambiguidade moral. Isso contrasta com fases anteriores da série, que confiavam mais na inteligência do espectador e permitiam múltiplas interpretações.

O desgaste ocorre quando a mensagem substitui o conflito. Vilões simplificados, dilemas resolvidos por afirmações morais e a ausência de tensão ética real enfraquecem a narrativa. A mensagem precisa estar a serviço da história — nunca o contrário.

A responsabilidade por essas escolhas não pode ser atribuída exclusivamente à Disney. Embora o estúdio não escreva os roteiros, sua influência se manifesta na busca por narrativas mais universais, com menor ambiguidade e maior clareza para públicos diversos.

Russell T. Davies sempre foi um autor com forte posicionamento social. A diferença agora é o alcance global da produção e a necessidade de tornar essas mensagens mais diretas. A reação polarizada se explica pela coexistência de três públicos: fãs clássicos, novos espectadores e críticos ideológicos, cada um com expectativas distintas.

Conclusão: mensagem versus dramaturgia

No fim das contas, o chamado “woke” em Doctor Who não representa uma ruptura com o passado da série, mas uma mudança de linguagem. O problema não está nos temas, que sempre fizeram parte de sua identidade, mas no equilíbrio entre mensagem e dramaturgia.

Quando a história conduz o debate, Doctor Who mantém sua força. Quando o discurso se sobrepõe ao conflito, a série perde potência narrativa. Quanto ao futuro da produção, sem trocadilhos, só o tempo dirá.

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