A venda da Warner Bros. Discovery deixou de ser apenas um movimento corporativo bilionário para se transformar em um divisor de águas na indústria do entretenimento. O que está em jogo não é só quem ficará com um dos maiores estúdios do mundo, mas qual modelo de cinema e televisão sobreviverá na próxima década.
De um lado, está a Netflix, a maior plataforma de streaming do planeta, com caixa robusto, alcance global e um modelo centrado no consumo doméstico. Do outro, a Paramount Skydance, liderada por David Ellison, que aposta na união de estúdios tradicionais como forma de enfrentar o domínio do streaming – ainda que isso envolva riscos financeiros e regulatórios elevados.
O confronto entre essas duas propostas deixou de ser técnico e passou a ser abertamente político, público e agressivo.
Na última semana, a Netflix elevou o tom. Em um comunicado incomumente duro, acusou a Paramount Skydance de “palhaçadas” e de induzir os acionistas da Warner ao erro, ao minimizar os obstáculos regulatórios de sua oferta. A estratégia da Netflix é clara: apresentar-se como o caminho seguro, previsível e financeiramente estável. A empresa lembra que seu acordo com a Warner já está assinado e aprovado por unanimidade pelo conselho. A fusão seria majoritariamente vertical, com menos sobreposição direta de ativos. Os processos regulatórios já estão em andamento nos EUA, Europa e Reino Unido. Ao aceitar conceder sete dias adicionais para que a Warner converse com a Paramount Skydance, a Netflix tenta parecer razoável – mas, na prática, reforça sua posição de força, como quem diz: “podemos esperar, vocês não”.
A proposta da Paramount Skydance é, por natureza, mais arriscada. A união de grandes estúdios tradicionais, redes de TV e ativos de notícias acende alertas imediatos nas leis antitruste. Além disso, há o fator econômico. A Paramount fala em economia de até US$ 6 bilhões, um número que, traduzido para a realidade da indústria, significa: demissões em larga escala, redução de produções, pressão sobre salários e contratos.
A Netflix vai além e calcula que, para sustentar a alavancagem dessa fusão, os cortes poderiam chegar a US$ 16 bilhões. Independentemente de qual número seja mais realista, o ponto central permanece: alguém vai pagar essa conta – e não serão os executivos no topo.
É nesse contexto que a participação de James Cameron deixa de ser apenas uma opinião individual e passa a funcionar como termômetro do caos. Cameron não é um cineasta qualquer. Ele é representante do cinema das grandes produções e grandes bilheteiras, dentro do modelo tradicional de produção e exibição cinematográfica. É quem incentivou a criação do evento cinematográfico mundial.
Quando ele escreve ao Senado americano chamando a compra da Warner pela Netflix de “desastrosa para o mercado cinematográfico”, isso não pode ser tratado como capricho ou birra criativa. É um sinal de que até os maiores nomes da indústria se sentem ameaçados.
A resposta de Ted Sarandos, responsável pela Netflix, foi diplomática na forma, mas dura no conteúdo. Sarandos acusou Cameron de distorcer informações e de se alinhar a uma “campanha de desinformação” da Paramount. Revelou ainda que os dois haviam se reunido semanas antes e que o diretor teria se mostrado receptivo às promessas da Netflix sobre janelas de exibição nos cinemas.
E é aí que a situação gera uma certa instabilidade em todo o negócio: se até uma conversa privada entre um dos cineastas mais poderosos do mundo e o CEO da maior plataforma de streaming não gera confiança suficiente para evitar uma carta pública ao Senado, isso mostra o grau de desconfiança estrutural que tomou conta de Hollywood.
Cameron vocaliza algo que muitos pensam, mas poucos dizem em voz alta: o receio de que a Netflix, ao absorver a Warner Bros., transforme definitivamente o cinema em um produto secundário, subordinado à lógica do streaming. Sindicatos, exibidores e parte da classe política compartilham esse temor. A promessa de janelas de exibição pode existir no papel, mas a pergunta que ecoa é simples: por quanto tempo?
Hoje, a discussão não é mais sobre tecnologia ou inovação. É sobre poder: quem decide o que é produzido? Onde os filmes vão chegar primeiro – no cinema ou no streaming? Se forem para o cinema, quanto será a janela de saída do filme do cinema para outra plataforma? Perguntas simples há alguns anos, quando os filmes chegavam ao cinema, passavam para home vídeo e depois seguiam para a televisão.
O fato é que toda a indústria de produção está à beira de um ataque de nervos. A guerra pela Warner Bros. escancarou uma indústria em estado de alerta permanente. Executivos brigam em público, cineastas apelam ao Senado, sindicatos se mobilizam e o futuro parece cada vez mais concentrado nas mãos de poucas corporações globais. Seja qual for o desfecho, uma coisa já é certa: o cinema, como o conhecemos nas últimas décadas, está sendo renegociado em tempo real.
E quando nomes como James Cameron deixam o set de filmagem para entrar no campo político, é um sinal de que um grande tsunami está sendo formado e, se não forem feitos ajustes para prevenir uma catástrofe, quando acontecer, não vai sobrar nada em pé. Não é mais uma discussão econômica de quem tem mais dinheiro, mas a sobrevivência de um setor da economia que, há mais de cem anos, se tornou essencial no mundo inteiro.
Os próximos episódios serão decisivos. Não perca!
