A diretora Emerald Fennell já disse que o novo Morro dos Ventos Uivantes é a versão dela do livro de Emily Brontë, tomando para si a responsabilidade pelo elenco mais velho do que os personagens, pelo figurino anacrônico e enredo carregado de sexo que já ganhou o apelido de 50 tons de ventos uivantes.
Claro que toda adaptação enfrenta críticas severas de quem ama o original. E isso vale para livro, quadrinho ocidental, mangá (Japão), manhwa (Coréia), manhua (China), webtoon, animação ou qualquer outro suporte de que se tem notícia. São poucas aquelas que agradam à maioria e algumas desagradam totalmente e com razão. Já o trabalho de Fenell com certeza agrada aos produtores e aos cinemas, já que está conseguindo arrancar o público de casa para checar se o longa é tão ruim, infiel, cheio de sexo ou tudo isso como andam dizendo. Ou, no mínimo, para ver Margot Robbie e Jacob Elordi.
Então, já que estamos na discussão, vamos dar uma olhada nas adaptações anteriores de Morro dos Ventos Uivantes. Enquanto esperamos a próxima que deve chegar dentro de alguns anos.
O básico
Parte do triunvirato “as irmãs Brontë”, Emily morreu deixando apenas um livro, O Morro dos Ventos Uivantes. Suas irmãs foram além. Charlotte escreveu Jane Eyre e O Professor, entre outros. Anne é autora de A Inquilina de Widfell Hall e Agnes Grey.
Além da prosa, as três irmãs escreviam poesia. Para driblar o preconceito contra mulheres escritoras, elas lançaram o livro Poems by Currer, Elis and Acton Bell usando pseudônimos masculinos. Essa edição de 1846 vendeu a magnífica quantidade de dois exemplares. No Brasil, Emily Brontë ganhou uma edição de seus poemas chamada O Vento da Noite.
Assim como o livro de poemas, Morro dos Ventos Uivantes foi publicado sob um pseudônimo masculino, Ellis Bell, em 1847, um ano antes da morte da autora aos 30 anos. Desde então, ele inspirou musicais, óperas e, claro, a canção de Kate Bush, cantora que encontrou um novo público graças à Strangers Things.
A história
O livro começa com a narração de Lockwood, que acaba de alugar a Granja de Thrushcross, propriedade de Heathcliff, homem taciturno e solitário que vive na propriedade chamada Morro dos Ventos Uivantes. Em busca de sossego, Lockwood elogia o isolamento da região, lugar sem cidades ou vizinhos e batido pelo vento.
Um dia, ao sair para uma caminhada, Lockwood é surpreendido por uma tempestade, o que obriga Heathcliff a lhe dar abrigo. No quarto, Lockwood encontra os livros de Catherine/Cathy Earnshaw e lê o que a garota escreveu 25 anos antes. É quando descobrimos a origem de Heathcliff, seu relacionamento com Cathy e a dinâmica na casa. Mas Lockwood é apenas o primeiro narrador, seguido por Nelly, a governanta. Além dos dois, trechos narrados por outros personagens e saídos do diário de Catherine contam como o pai dela encontrou Heathcliff durante uma viagem e o trouxe para casa, onde ele vive como um servo. Com o tempo, Cathy e Heathcliff se apaixonam, mas a diferença de classes impede o relacionamento e ela se casa com Edgard Linton, enquanto Heathcliff desaparece. Três anos depois, Heathcliff volta misteriosamente rico, iniciando um plano de vingança que só se agrava com a morte de Cathy, quando ele pede ao fantasma dela que o assombre.
Após conhecer os fatos de vinte anos antes, Lockwood se muda. Meses depois, ele retorna e descobre que Heathcliff morreu e os locais garantem ver seu fantasma caminhando pelas charnecas ao lado de Catherine.
Versões e inspirações
1939 – A mais antiga
Como a versão de 1920 feita ainda durante o cinema mudo se perdeu, essa é a filmagem mais antiga disponível. O grande Laurence Olivier interpreta Heatchliff, com Merle Oberon como Catherine sob a direção de William Wyler. Claro que muito da violência do livro ficou de fora ou aparece apenas nos diálogos por conta da época em que o longa foi produzido. A segunda parte do livro, que trata do filho de Heathcliff e da filha de Cathy também ficaram de fora.
1967 – A inspiradora

A adaptação da BBC com Ian McShane (Deadwood: Cidade sem Lei) e Angela Scoular (007- A Serviço Secreto de Sua Majestade) em quatro episódios pode não ser a mais lembrada, mas tem a honra de ter inspirado Kate Bush, que encontrou novo público graças a Stranger Things.
1970 – Que se faça a cor

Timothy Dalton é Heathcliff nessa primeira versão em cores, com Anna Calder-Marshall como Cathy. O roteiro inclui pistas de que Heathcliff seria o filho bastardo do pai de Cathy, o que, além da parte social, impediria o romance dos dois.
1978 – Aquela música
A música de estreia de Kate Bush tomou o mundo de assalto como parte do álbum The Kick Inside. Na canção, que Bush compôs aos 18 anos após ver a série da BBC, que por sua vez a levou a ler o livro, a cantora assume a perspectiva de Cathy no capítulo 3, quando Lockwood encontra o espectro da garota que tenta entrar pela janela da casa. Ou tem um pesadelo, dependendo do ponto de vista.
1992 – Dupla de peso
Num de seus vários trabalhos juntos, Ralph Fiennes aparece aqui um ano antes de estourar em A Lista de Schindler ao lado de Juliette Binoche (O Sabor da Vida). A versão também ficou famosa por colocar o livro completo em duas horas de filme.
2009 – Romance
Quem gosta de uma adaptação com tom mais romântico, a versão com Tom Hardy e Charlotte Riley é a ideal com suas declarações de amor eterno trocadas entre Cathy e Heathcliff.
2011 – A idade correta
A versão que marcou por acertar escalando uma atriz, Kaya Scodelario (Senna), com a idade da personagem. Também é a única a colocar um ator afrodescendente no papel de Heathcliff (James Howson). É ainda a adaptação mais experimental, filmada com uma câmera manual e com foco nos primeiros anos do casal, na violência e no abuso de seu relacionamento.
As infiéis
Se a exigência è fidelidade total ao livro, então o caso é ficar longe das adaptações feitas para outras culturas e épocas como Abismos de Pasión (1954), dirigida por Luis Buñuel e ambientada no México e Hurlevent (1985), do diretor Jacques Rivette, que leva a história para a França em 1931. Já Arashi ga oka (1988) do diretor Yoshishige Yoshida, transporta a história para o Japão medieval, sem dúvida uma sociedade e época onde a vingança de Heathcliff, aqui renomeado Onimaru, ganha contornos ainda mais selvagens e perturbadores.
A multiplicidade de versões mostra como um clássico é capaz de admitir a visão de diferentes autores. E também como o público de cada época teve
