Pensando muito seriamente em Hora do Recreio, escrito, dirigido e produzido por Lucia Murat, cheguei à conclusão que está valendo muito mais a pena assistir a um bom documentário do que à mesmice do cinema comercial.
No mínimo você usa mais o cérebro para transportar o tema documentado para perto de você. Neste caso específico, Lucia centra fogo na realidade (triste em muitos momentos) do sistema de ensino na periferia do Rio de Janeiro (RJ). Onde a juventude é frequentemente reduzida a números em relatórios de segurança pública ou evasão escolar, a cineasta propõe um exercício radical de escuta.Ela faz da sala de aula um palco de resistência no documentário-híbrido Hora do Recreio, onde o passado literário de Lima Barreto e o presente brutal das comunidades cariocas se encontram em um abraço desconcertante e necessário.
O grande diferencial da obra é a sua estrutura de docuficção. Murat não se limita a colher depoimentos; ela desafia jovens de grupos como o Nós do Morro e o Instituto Arteiros a encenarem passagens de Clara dos Anjos. O texto de Lima Barreto, escrito no início do século XX sobre uma jovem negra abusada pela estrutura social e racial, ressoa com uma atualidade assustadora.
O que poderia ser um exercício acadêmico engessado ganha vida quando os estudantes – moradores de regiões como Vidigal e Cidade de Deus – desconstroem o vocabulário arcaico do autor com humor e ironia. Eles não apenas interpretam Clara; eles a traduzem para a gíria, para o corpo e para a vivência de quem enfrenta operações policiais e racismo estrutural diariamente.
Nas sequências puramente documentais, o filme atinge seu ponto mais visceral. O silêncio da equipe de filmagem permite que depoimentos sobre feminicídio, tráfico e gravidez na adolescência surjam sem o filtro do coitadismo. Muito assunto para 83 minutos, mas a obra não quer ser um tratado acadêmico, mas um grito coletivo.
Ao contrário de muitos documentários sobre a periferia que terminam em lamento, Hora do Recreio escolhe a luz. A decisão de Murat em colocar esses jovens no palco para serem aplaudidos, e não apenas observados como estatísticas, é um gesto político de alto impacto. O filme prova que, mesmo sob o peso de séculos de discriminação sistêmica, a arte permanece como a ferramenta mais potente para desviar da bala e projetar um futuro.
Diria que é um filme essencial para educadores, estudantes, pais e filhos. E, principalmente, para os votantes deste país. É chavão, mas é verdade: a educação pública é uma oportunidade incrível de mudar vidas. Bem como o país. Hora do Recreio chega aos cinemas em 12/3 distribuído pela Imovision.
