Quem lembra de Arnold Schwarzenegger declamando Shakespeare em O Último Grande Heroi logo percebe que existem alguns limites intransponíveis para atores musculosos popularizados pelos filmes de ação. No caso do ex-governator, essa visão se encerrava no humor desse mesmo filme e ponto. Nunca houve pretensão de Arnold se arriscar pelo drama, embora tenha feito coisas interessantes no gênero comédia.
Mas isso ficou pra trás. Mais ou menos… Porque as gerações seguintes de musculosos se arriscaram também. The Rock cantou, Vin Diesel fez drama e comédia e assim vem sendo.
Desde que assumiu o manto de Reacher, Alan Ritchson tornou-se o novo padrão para o herói de ação contemporâneo. Em Máquina de Guerra (War Machine), que estreou na Netflix no último dia 6 de março, o ator prova que sua presença física é capaz de sustentar até mesmo as premissas mais dependentes de clichês. Sob a direção de Patrick Hughes (conhecido pela franquia Dupla Explosiva), o longa evoca a nostalgia dos filmes de ação dos anos 80, mas com uma roupagem de ficção científica de sobrevivência. Tipo Predador.
O filme inicia-se sob a máscara de um drama militar rigoroso, quase um tributo a Nascido para Matar. No entanto, a grande sacada de Hughes ocorre por volta dos 30 minutos, quando a trama sofre uma guinada abrupta para o sci-fi. Essa transição é revigorante: o que era um treinamento convencional transforma-se em um “jogo” de gato e rato contra uma tecnologia implacável.
A comparação com misturas de Predador e Exterminador do Futuro não é exagero; o filme abraça essa linhagem com orgulho. Para falarmos de Schwarzenegger novamente.
Onde Máquina de Guerra realmente brilha é na execução de suas sequências de combate. Em uma era saturada por efeitos digitais genéricos, Hughes opta por uma ação “legível” e surpreendentemente crua. O uso de efeitos práticos e o nível de violência gráfica – com desmembramentos e combates corpo a corpo que transmitem o peso real de cada golpe – garantem ao filme uma identidade tátil. Ritchson, com seu carisma estoico, é o motor perfeito para essa destruição, consolidando-se como o herdeiro legítimo dos brucutus da era de ouro.
Contudo, nem tudo é metal polido. O roteiro falha ao tentar ser algo além de um veículo para o seu protagonista. A previsibilidade é a maior vilã aqui: fora a virada de gênero inicial, a narrativa segue rigorosamente a cartilha do herói traumatizado e da unidade militar descartável.
Isso reflete diretamente no desperdício de um elenco de apoio conhecido. Nomes como Dennis Quaid e Esai Morales são limitados a papéis unidimensionais que servem apenas como pontes para as cenas de ação de Ritchson. Além disso, o visual por vezes árido e desbotado, somado a um final que parece mais preocupado em estabelecer uma franquia do que em encerrar sua própria história, retira parte do impacto emocional do encerramento.
Máquina de Guerra é entretenimento escapista de alta voltagem. Embora careça de profundidade narrativa e originalidade em seu texto, ele compensa com uma execução técnica impecável e um protagonista que entende exatamente o que o público de ação deseja.
Não tem paciência com filme de porrada? Nem tente…
