*Colaboração pra lá de especial do meu amigo (e fãzaço de Ben-Hur!) Paulo Marcos Ragnole.
Acho que foi em 1967 ou 68. Eu tinha uns 9 anos quando meus pais me levaram para um programa que mudaria a minha vida: fomos ao cinema assistir Ben-Hur. Eu não tinha a mínima ideia do que era aquilo, mas naquele tempo funcionava assim: os pais mandavam e os filhos obedeciam. Hoje, as coisas mudaram, mas isso é outro assunto.
O cinema, por si só, já era um espetáculo à parte: o fabuloso Comodoro, na Avenida São João. Era mais do que uma sala; era um Cinerama, um dos raros no Brasil. A tela era gigantesca e curva, com um som impactante que antecedia o Surround que conhecemos hoje.
O filme já começava de um jeito diferente: seis minutos estáticos com a imagem da “Criação de Adão”, de Michelangelo, sob a fantástica trilha sonora de Miklós Rózsa. Eu não entendia aquela demora para a ação começar, mas aproveitava a oportunidade para devorar algumas “bobagens” (balas e chocolates).
Quando o filme enfim começou, fui sendo fisgado. Ben-Hur é um daqueles épicos de 3 horas e meia que, hoje, talvez fosse transformado em uma série de dez temporadas. Mas é um filme que você não quer que termine. Tudo ali é perfeito e, incrivelmente, não parece datado.
O diretor William Wyler soube criar uma atmosfera que envolvia o público. O argumento é clássico: dois amigos de infância entram em conflito quando adultos por motivos políticos. Messala, o vilão e soldado fiel do Imperador, impõe uma pena injusta a Judah Ben-Hur, um príncipe judeu, condenando-o à morte nas galés.
A trama é narrada com uma maestria que equilibra tensão e relaxamento. Charlton Heston e Stephen Boyd estão impecáveis. Heston levou o Oscar de Melhor Ator e o filme arrebatou outras dez estatuetas (um recorde de 11 Oscars que demorou décadas para ser igualado).
Lembro-me bem do intervalo – comum em filmes longos para a troca do rolo. Fiz algumas perguntas à minha mãe e ela disparou: “Você não está entendendo o filme!”. Não importava. Eu já estava apaixonado pela história, pelo herói e até pelo vilão.
Mas o melhor viria após o intervalo: a corrida de quadrigas. Desafio qualquer crítico a citar uma sequência de ação melhor no cinema. A preparação nos bastidores, o olhar entre os rivais, a música, a precisão da continuidade onde a ordem dos competidores nunca se perde… é pura adrenalina. Foram nove meses apenas para rodar essa cena na Itália, com cavalos reais e lâminas criminosas nas rodas de Messala.
Com a chegada do vídeo, fiz algo que o diretor não esperava: congelei a cena em que Ben-Hur pula sobre uma biga acidentada. Ali, no detalhe, é possível ver o dublê. Isso tira a perfeição da obra? De jeito nenhum. Só mostra o esforço humano por trás da produção e o lado “doentio” de um fanático.
Recentemente, lançaram uma nova versão de Ben-Hur, agora com efeitos visuais digitais e recursos tecnológicos. Que pena que, além de ser um filme fraco, forçaram um final piegas inexistente na obra original. O ser humano realmente tem dificuldades para evoluir; às vezes, o progresso tecnológico só mascara o talento limitado.
Hoje, não tenho ideia de quantas vezes vi o clássico de 1959. Só sei dizer uma coisa: ainda bem que, naquele tempo, os pais mandavam e a gente obedecia.
Nota do Editor: Ben-Hur estará de volta às telonas em versão 4K em sessões especiais de Páscoa, entre os dias 2 e 5 de abril.
