Crítica | Filme | A Cronologia da Água

Crítica | Filme | A Cronologia da Água

Em 2018, Kristen Stewart anunciou que não atuaria até colocar nas telas sua estreia como diretora. A atriz havia escolhido a adaptação de A Cronologia da Água, livro de memórias de Lídia Yuknavitch para seu primeiro longa-metragem após experimentar a direção em um curta e um videoclipe. Contudo, após cinco ano buscando financiamento, o projeto continuava no chão, mesmo com Imogen Poots escalada para o papel principal.

O motivo para tanta demora fica claro a partir da primeira cena do longa que acompanha a dura história de Lídia da infância à vida adulta. Não é o tipo de filme com retorno garantido que os investidores gostam. Não tem efeitos especiais, explosões ou fugas. A temática é necessária, mas complexa e dura de engolir, como quase tudo de que é importante falar.

Filha caçula de uma família estatisticamente ideal – pai, mãe, duas filhas, boa casa – Lídia é vítima do abuso sexual do pai arquiteto (Michael Epp), assim como sua irmã mais velha, Cláudia (Thora Birch), que foge de casa ainda adolescente. Para Lídia, a saída vem da natação, onde seu talento lhe consegue uma bolsa de estudos para a universidade. Uma oportunidade que ela perde para o vício em álcool e drogas, parte de suas tentativas vãs de fazer com que os anos de abuso – e ela mesma – desapareçam. O estrago é tamanho que ela briga com um namorado porque a gentileza dele, o carinho, a irritam profundamente. Ela não conhece outra coisa além da negligência da mãe alcoolica, o abuso do pai e do treinador, o desejo de não estar presente.

Para dar vida à história de Lídia, contar como ela sobreviveu, Kristen Stewart, também roteirista no que é obviamente um projeto de paixão, constrói uma narrativa não linear, apesar da cronologia no título, repleta de closes, imagens granuladas, memórias, trechos narrados, passagens marcadas de uma fase a outra. Central ao enredo, o abuso é mantido fora de cena, nunca mostrado, mas presente no olhar, nas expressões de medo e ódio das vítimas, na explosão do momento em que Lídia finalmente consegue xingar o pai. Ao longo dos anos, o talento nas piscinas desemboca na escrita, onde Lídia se destaca e começa a construir-se como pessoa capaz de seguir em frente.

A Cronologia da Água é, mais do que uma narrativa de fatos, uma narrativa de sentimentos ao longo de um caminho que parte do medo para a autodestruição, passando pela perda – Yuknavitch teve uma filha natimorta – até chegar não a uma pessoa que se recuperou, mas uma pessoa que tomou para si o controle da própria vida e da própria sexualidade. Mantida no projeto desde os anos em busca de realização, Imogen Poots é brilhante como Lídia, assim como Thora Birch no papel de Cláudia, a irmã mais velha que compartilha o mesmo trauma e também encontrou um caminho para fora da escuridão, embora isso apareça apenas em sua presença estabilizadora na vida de Lídia e na informação de que ela trabalha como professora.

Outro destaque é Jim Belushi como Ken Kesey, escritor e professor da Universidade do Oregon que convidou Lídia para participar de seu grupo de escrita do livro Caverns, publicado em 1989. A experiência incluiu os estudantes vivendo juntos enquanto trabalhavam nos textos que comporiam o livro. Kesey, autor de Um Estanho no Ninho, tem importância capital no caminho de Lídia para se tornar uma pessoa para si mesma e para o mundo quando aponta escrever como um caminho para que ela enfrente e vença o trauma. Parece um elemento comum, o artista nascido do sofrimento, mas não é um caminho fácil. Numa cena, vemos uma pessoa abandonando uma leitura de Lídia, abalada pelo conteúdo. O mesmo pode acontecer com parte do público do filme. Kristen Stewart claramente foi um busca de um material capaz de impactar e por vezes parece buscar deliberadamente o status de “filme de arte”, mas não há dúvidas de que estreou na direção com as mãos segurando firme no volante. Estreia em 5/2 distribuído pela Filmes do Estação.

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