Às vezes, o cinema consegue ser mais urgente que o próprio telejornal. Tatame, que chega aos cinemas em 2 de abril pela Kajá Filmes, prova exatamente isso. Não é só um filme de esporte; é um manifesto de resistência filmado sob uma pressão absurda. O fato de ser a primeira parceria oficial entre um diretor israelense (Guy Nattiv, que levou o Oscar pelo curta Skin) e uma diretora iraniana (Zar Amir Ebrahimi, de Noites de Mashhad) já dá ao projeto um peso que vai muito além das medalhas.
Ainda mais em tempos de guerra entre Irã e Istael. E Estados Unidos, claro.
A história nos joga direto em Campeonato Mundial de Judô promovido pela federação mundial do esporte, mas o foco não está nos golpes. Ainda que as lutas sejam bem coreografadas.
A luta real é da atleta Leila (Arienne Mandi, da série The L Word: Generation Q) e acontece nos vestiários e corredores. O regime do Irã exige que ela desista da competição para não correr o risco de enfrentar uma judoca israelense. É aquele tipo de dilema que faz a gente se perguntar: o que eu faria?
Zar Amir Ebrahimi faz um trabalho duplo aqui. Além de dirigir e roteirizar (ao lado de Elham Erfani), ela interpreta a treinadora Maryam. É nela que vemos o tamanho do medo; uma mulher que já foi “quebrada” pelo sistema no passado e agora precisa decidir se ajuda sua atleta a se rebelar ou se vira o braço do Estado para sufocá-la.
A escolha pelo preto e branco, com a fotografia de Todd Martin (do curta The Letter Room), pode afugentar muita gente. A câmera se move colada nos corpos, capturando o suor e o cansaço físico, transformando cada combate em um suspense. Para quem gosta de um cinema visceral, essa estética é um prato cheio.
Sim, rola um clichê de superação no final, mas o que fica é a carga política forte, que leva esses detalhes para um nível menos importante.
O ponto alto de Tatame é não deixar ninguém exatamente confortável. É um filme que usa o silêncio para dar um grito em nome da liberdade, inspirado em casos reais de atletas iranianas que não concordavam com os ditames do Líder Supremo.
Se você espera um documentário técnico sobre judô, vai encontrar um thriller até previsível, mas empolgante.
