Crítica 2 | Filme | A Conspiração Condor

Crítica 2 | Filme | A Conspiração Condor

Tinha pouco mais de 16 anos quando comecei a trabalhar na redação das Rádios Tupi e Difusora, no início dos anos 1970. Foi minha primeira grande escola, com Demétrio Costa como meu primeiro chefe e mentor. Também foi naquele momento que comecei a entender o poder da censura que o regime militar exercia sobre redações de jornais, rádios e TVs em todo o país, ao receber uma misteriosa ligação de uma agente da Polícia Federal informando que determinado assunto não poderia ser noticiado.

Alguns veteranos jornalistas me aconselhavam a não responder nada e desligar o telefone. Outros, mais experientes, diziam que era importante conhecer o conteúdo da censura para não ignorá-lo completamente. Foi nesse contexto que o jovem Paulo Gustavo, que ainda sonhava em fazer engenharia eletrônica, começou a se fascinar por aquele ambiente – momento que acabou definindo seu futuro.

Quando fui assistir a A Conspiração Condor, ignorei, como sempre faço, detalhes da produção para não me influenciar no que iria ver. Essa é uma prática que adotei desde que assisti ao trailer de um filme de ficção científica de 1973, Fator Netuno, que me deixou com a sensação de que o trailer era melhor que o filme.

Antes de comentar o filme, vale uma reflexão sobre suspenses políticos, aqueles que exploram tramas nos bastidores de governos que podem, ou não, afetar a vida do homem comum. Filmes como Z (1969), de Costa-Gavras, ou A Trama (1974), dirigido por Alan J. Pakula, baseiam-se em conspirações envolvendo assassinatos de opositores políticos de determinado país.

Estava na redação quando chegou a notícia da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em um acidente de carro, em agosto de 1976. Poucos meses depois, João Goulart, o ex-presidente deposto pelo golpe de 1964, também morre, levantando suspeitas em parte da população. Essas duas mortes acabam cruzando o caminho da repórter Silvana, interpretada por Mel Lisboa.

Assim como Jane Fonda em Síndrome da China (1979), Silvana é uma repórter de entretenimento, cobrindo assuntos sobre ricos e famosos – temas que dificilmente afetariam o status quo do poder. A menos que algum influente seja pego em flagrante, seus temas permanecem distantes do bloco de anotações da jornalista. Até que uma informação divergente sobre o acidente do ex-presidente a leva a investigar mais a fundo. É aí que entra a conspiração que André Sturm constrói: Operação Condor.

A Operação Condor foi uma rede internacional de repressão política que ignorava fronteiras para eliminar opositores, iniciada em 1975 durante o governo de Pinochet, no Chile, com a participação de serviços de segurança de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Esses governos cooperavam entre si para trocar informações, prender, torturar e, em alguns casos, assassinar opositores – muitas vezes em operações clandestinas transnacionais. Segundo depoimentos colhidos pela Comissão da Verdade entre 2012 e 2014, o Brasil participou ativamente, especialmente na troca de informações e cooperação com regimes vizinhos, contribuindo para um período de graves violações de direitos humanos na América Latina.

A Conspiração Condor coloca a repórter idealista em rota de colisão com algo maior do que poderia imaginar. A ligação com as mortes de Juscelino e Jango poderia revelar um cenário onde Carlos Lacerda, político influente dos anos 1960, formaria alianças para enfraquecer o regime militar. Toda essa carga histórica cria uma atmosfera de mistério, especialmente quando Silvana questiona em quem confiar. A ironia é que ela compartilha suas dúvidas com Nilton Bicudo, censor da Polícia Federal dentro da redação, prática comum naquela época em grandes jornais brasileiros.

André Sturm, em colaboração com Victor Bonini, construiu uma história repleta de informações históricas que deixam o público curioso para descobrir se os eventos da tela refletem a realidade. Muitas perguntas permanecem sem respostas, especialmente sobre o acidente de Juscelino, em que diversas testemunhas foram silenciadas ou desencorajadas a relatar que o carro do ex-presidente não bateu no ônibus.

Para fãs de ciências forenses, surgem questões adicionais: teria sido possível simular um ataque cardíaco em João Goulart? E nada é mais dramático que a bomba que matou o ex-chanceler de Salvador Allende, Orlando Letelier, e sua assistente, em Washington.

Mesmo entrando na lista de filmes sobre a ditadura militar, André Sturm transforma A Conspiração Condor em um suspense político, mostrando que a busca desenfreada pela verdade pode ter consequências cruéis. O cineasta não apenas referencia eventos históricos, mas também presta homenagem ao cinema, incorporando a figura do crítico Rubens Ewald Filho. Em determinado momento, Silvana encontra a frase “o candidato da Manchúria” em um documento e questiona o crítico do jornal, interpretado pelo próprio André, sobre a referência ao filme Sob o Domínio do Mal (1962), que mostra uma conspiração comunista infiltrando-se nas forças militares americanas por meio de lavagem cerebral.

A Conspiração Condor é um filme que conduz o público a questionar os eventos apresentados, sem fornecer respostas definitivas. Em um paralelo com Arquivo X, Silvana poderia resumir a experiência com a máxima: “Não confie em ninguém.”

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