Adaptar um clássico contemporâneo de David Fincher pode ser uma tarefa ingrata, mas a versão brasileira de Quarto do Pânico, que chega ao catálogo do Telecine em 13/2, prova que há sempre espaço para novas leituras quando o olhar por trás da câmera é autoral. Sob a direção de Gabriela Amaral Almeida (A Sombra do Pai), a premissa de invasão domiciliar ganha contornos de terror psicológico e um subtexto social que pulsa com a realidade brasileira.
O roteiro de Fábio Mendes (Carcereiros: O Filme) mantém a espinha dorsal da trama de 2002, mas nacionaliza o conflito com certa inteligência. A mudança de uma mãe, vivida por Isis Valverde (Ângela), e sua filha, Marianna Santos (Poliana Moça), para uma residência equipada com um abrigo fortificado, serve como o ponto de partida para um embate que vai além do crime. No Brasil, o “quarto do pânico” deixa de ser apenas um recurso tecnológico para se tornar uma metáfora visual do isolamento das elites e do medo que permeia os centros urbanos.
Isis Valverde entrega uma da performance eficiente, que equilibrao a vulnerabilidade materna com um instinto de sobrevivência bruto. A química com a jovem Marianna Santos é palpável, garantindo que o público se importe com o destino da dupla.
No lado oposto da porta, o trio de invasores traz uma complexidade bem-vinda. André Ramiro (Tropa de Elite) imprime uma humanidade melancólica ao seu personagem, enquanto Marco Pigossi (Cidade Invisível) se afasta da imagem de galã para construir uma ameaça silenciosa e inquietante. A presença de veteranos como Caco Ciocler (Pantanal) e Leopoldo Pacheco (Pantanal) confere gravidade aos momentos de negociação e violência.
A diretora Gabriela Amaral Almeida troca o exibicionismo técnico de câmeras impossíveis por uma atmosfera sufocante e suada. A casa, em vez de ser um labirinto moderno, parece um organismo vivo que encurrala as protagonistas. A fotografia, predominantemente confinada, privilegia as sombras, transformando o espaço de “segurança” em uma armadilha psicológica. Se o original era um exercício de estilo sobre controle, a versão brasileira é um estudo sobre o descontrole e a fragilidade das nossas fronteiras privadas.
Quarto do Pânico é uma adaptação que justifica sua existência ao injetar sangue novo e críticas sociais em uma fórmula conhecida. Embora sofra em breves momentos com a previsibilidade do material original, o filme se sustenta como um suspense com certa voltagem, crítica social e alguma novidade.
