Crítica | Filme | Minha Querida Família

Crítica | Filme | Minha Querida Família

Reunir uma família em tela é um dos temas mais antigos do cinema, mas em Minha Querida Família, a diretora Isild Le Besco (O Corte) consegue extrair um frescor raro ao focar na cura através do convívio. O longa é um mergulho sensorial em um fim de semana onde o tempo parece parar, permitindo que as mágoas do passado sejam lavadas por vinho, música e a necessidade inerente de pertencimento.

A narrativa ganha corpo com a chegada de Estelle, interpretada com uma vulnerabilidade luminosa por Élodie Bouchez (A Vida Sonhada dos Anjos). Fugindo de uma crise em seu casamento em Roma, ela busca abrigo na casa da enigmática Queen. No papel da matriarca, Marisa Berenson (Barry Lyndon) entrega uma performance magistral, agindo como a força gravitacional que mantém todos os seus filhos – vindos de diferentes cantos do mundo – em órbita.

A química do elenco é o grande triunfo da produção. Ver nomes como Jeanne Balibar (Barbara) e Laëtitia Eïdo (Fauda) trocando farpas e abraços confere à obra uma autenticidade orgânica. Até mesmo as participações de Sam Spruell (Snow White and the Huntsman) e do comediante Elie Semoun (Astérix nos Jogos Olímpicos) ajudam a equilibrar o tom do filme, trazendo doses de humor e melancolia que impedem que o drama se torne excessivamente sentimental.

Isild Le Besco opta por uma direção que valoriza os espaços e os pequenos gestos. A casa de Queen é filmada como um santuário, onde a luz natural e as sombras das árvores criam uma atmosfera de isolamento protetor. A diretora demonstra uma maturidade nova ao orquestrar cenas de grupo onde o riso e a dança surgem como atos de resistência contra a dor. Aqui o foco é a resiliência.

O roteiro navega habilmente entre as acusações acumuladas por décadas e a aceitação silenciosa. O filme não tenta resolver todos os traumas da família em um fim de semana, mas propõe que o simples fato de estar junto, revisitando as próprias raízes, é o combustível necessário para seguir inabalável no mundo exterior.

Minha Querida Família é uma celebração das complexidades afetivas. É um filme que entende que a família é, ao mesmo tempo, a fonte da ferida e o remédio. Com performances femininas potentes e uma fotografia que convida o espectador a sentar-se à mesa, a obra de Isild Le Besco se consolida como um exercício de empatia e um lembrete de que, às vezes, o caminho para o futuro exige uma breve parada no passado. Estreia em 5/3 distribuído pela Fênix.

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