Adaptar o aclamado romance de Maggie O’Farrell para o cinema exigia mais do que uma transposição de roteiro; exigia uma compreensão profunda de como a arte transforma as experiências humanas fundamentais. Para a diretora Chloé Zhao, Hamnet surgiu em um momento de questionamento pessoal sobre seu propósito como contadora de histórias. O resultado é um filme sobre amor e morte, mas, acima de tudo, sobre a metamorfose da dor em algo eterno.
CriCríticos acompanhou a conversa com Zhao e os protagonistas Jessie Buckley (Agnes) e Paul Mescal (William Shakespeare). O relato dos bastidores revela um processo de criação pouco convencional, baseado em “trabalhos com sonhos” e explorações somáticas, onde a equipe se permitiu tatear no escuro em busca de uma verdade absoluta sobre o luto e a interdependência humana.
O mistério de Agnes e o “trabalho com sonhos”

Para Jessie Buckley, a conexão com Agnes foi instantânea e visceral. Ao ler o livro, a atriz sentiu que a personagem vivia além do tempo, equilibrando uma humanidade tangível com um mistério efêmero. No set, essa essência foi trabalhada através de uma técnica que Jessie apresentou a Chloé: o dream work (trabalho com sonhos). “Isso mudou minha forma de trabalhar e minha vida”, confessou a diretora, que descreveu sua relação com Buckley como uma “interdependência sagrada”.
A construção da personagem não seguiu análises tradicionais de cena. Paul Mescal descreveu Zhao como a diretora mais espiritual com quem já trabalhou. “Grande parte do que estávamos fazendo era não tradicional. Era como estar de olhos fechados, tateando no escuro em busca de algo que parecesse verdadeiro”, relembrou o ator. O foco era sentir a cena antes de falar sobre ela, permitindo que os atores fossem condutores de seus personagens.
A anatomia de uma perda universal

Um dos grandes trunfos da adaptação foi a decisão de filmar em ordem cronológica. O primeiro mês foi dedicado ao romance entre Agnes e Will, construindo o “ninho” familiar que daria peso emocional à tragédia posterior. Para Paul Mescal, essa fase foi essencial: “Se o público não acreditar que essas duas pessoas construíram essa família, não há nada a perder no final”.
No entanto, a transição para a segunda metade do filme foi brutal. Enquanto Mescal teve uma semana de folga, Buckley mergulhou nas cenas de morte e nascimento. “A arte imitou a vida. Eu estava no hotel e sabia o que a Jessie estava passando; eu me senti ausente”, contou Paul. O retorno ao set para a cena da morte de Hamnet foi, segundo ele, um dos dias mais dolorosos de sua carreira. A modulação do alívio ao ver a filha viva, apenas para descobrir que o filho era quem havia partido, exigiu uma entrega que deixou marcas em todo o elenco.
A coragem de estar vivo

Ao ser questionada sobre a universalidade de Hamnet, Jessie Buckley foi categórica: o filme é sobre a fragilidade de existir dentro do amor. “Ser corajoso o suficiente para amar alguém e ser capaz de deixá-lo partir é um ato de profunda humanidade. É a aventura da nossa vida”, refletiu a atriz.
O filme mostra que, mesmo diante do isolamento e da dor, é necessário viver de forma audaz para que a tragédia se transforme em narrativas que inspirem gerações. Agnes, em sua força vital, é quem impulsiona Will a Londres, permitindo que ele se torne a pessoa que precisava ser. Ao final, Hamnet deixa claro que a arte não cura a morte, mas é o único veículo capaz de dar a ela um novo significado, transformando a ausência em uma presença eterna na história da humanidade.
