Na história do cinema americano, existem momentos eternizados pelo talento de atores e atrizes que souberam capturar a essência de seus personagens, dando ao público muito mais do que uma atuação profissional. São pessoas que deram corpo e alma para se transformar em outras, levando mensagens e momentos capturados pelas câmeras e registrados para sempre no cinema. Uma dessas pessoas foi Robert Duvall, que tive o prazer de conhecer quando ele esteve no Rio de Janeiro para lançar O Apóstolo (1998).
Seu primeiro passo no cinema foi no clássico O Sol é Para Todos (1962), onde interpretava um jovem deficiente mental, peça importante na trama liderada por Gregory Peck, ganhador do Oscar por seu trabalho como o advogado Atticus Finch. Dois anos depois, entrou no elenco de Caçada Humana (1966), ao lado de Jane Fonda, Robert Redford e Marlon Brando, no cultuado filme de Arthur Penn.
Antes de O Poderoso Chefão (1972), Robert Duvall esteve em algumas preciosidades do cinema, como No Assombroso Mundo da Lua (1967), dirigido por Robert Altman, que o escalou para fazer o major Frank Burns na comédia MASH* (1970). Foi o motorista de táxi que ajuda o Tenente Bullitt, no clássico policial estrelado por Steve McQueen, em 1968. No ano seguinte, esteve com John Wayne no faroeste Bravura Indômita (1969).
Duvall foi indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante por O Poderoso Chefão (1972), Apocalipse Now (1979), A Qualquer Preço (1999) e O Luiz (2015). Como ator, foi indicado por O Dom da Fúria (1981) e O Apóstolo (1998), e venceu o Oscar por sua atuação como um cantor de música country lutando contra o vício em A Força do Carinho (1983).
Ele trabalhou em outros momentos marcantes do cinema como THX 1138 (1971), de George Lucas, Rede de Intrigas (1976), E a Águia Pousou (1976), Um Homem Fora de Série (1984), Colors – As Cores da Violência (1988), Apocalipse Now (1979), Um Dia de Fúria (1993), O Jornal (1994), Fenômeno (1996), Impacto Profundo (1998), Pacto de Justiça (2003), Coração Louco (2009) e O Pálido Olho Azul (2022).
Assim como toda grande estrela do cinema de sua geração, Robert Duvall começou a trabalhar no teatro e na televisão. Esse amor pela interpretação começou quando servia no exército nos anos 1950, em Fort Gordon, ao participar de uma peça amadora. Ele estudou na escola de teatro Neighborhood Playhouse, em Nova York, tendo como colegas de quarto Dustin Hoffman, Gene Hackman e James Caan.
O primeiro trabalho profissional de Duvall foi na antologia dramática The Robert Herridge Theater (1960), da CBS. Trabalhou em outras antologias na mesma época, até seu nome ser escalado para participações em séries populares dos anos 1960. Entre elas estão 100 Homens Marcados, Shannon, Suspense, Cidade Nua, Os Intocáveis, Rota 66, O Homem de Virgínia, O Tenente, O Fugitivo, Viagem ao Fundo do Mar, Os Defensores, O Falcão, The Felony Squad, Jogo Perigoso, O Túnel do Tempo, Combate, Cimarron, James West, Alma Torturada e Mod Squad.
Em 1993, ele interpretou o ditador soviético Joseph Stalin na minissérie Stalin, ganhando o Globo de Ouro por sua interpretação e uma indicação ao Emmy por sua performance. Outra minissérie importante em sua carreira foi Rastro Perdido, um faroeste em que dividia a aventura com Thomas Haden Church, interpretando dois vaqueiros que salvam cinco chinesas da prostituição e são perseguidos em sua jornada entre Oregon e Wyoming. Uma produção que resgatou os valores do faroeste heróico, ganhando os Emmys de Melhor Minissérie e de Ator para Duvall e Ator Coadjuvante para Thomas Haden Church.
Particularmente, tive a oportunidade de conversar com Duvall sobre o episódio Camaleão, da primeira temporada de Quinta Dimensão (1963). Ele interpretava um agente do governo que, para descobrir os motivos da chegada de uma raça alienígena, passava por uma cirurgia que o transformava em um deles. Segundo o ator, fazer a série era fácil, mas ficar mais de duas horas sendo maquiado era algo entediante. Duvall também participou de outro episódio de Quinta Dimensão, o duplo Os Herdeiros, da segunda temporada.
Por todas as incríveis obras nas quais Robert Duvall participou, cito uma frase em especial, do filme Apocalipse Now (1979), onde interpretava o Tenente-Coronel Kilgore, que liderou o ataque a uma aldeia vietnamita:
“Adoro o cheiro de napalm pela manhã. Sabe, uma vez bombardeamos uma colina por 12 horas. Quando tudo acabou, subi lá. Não encontramos nenhum deles, nenhum maldito corpo queimado. O cheiro, sabe aquele cheiro de gasolina? A colina inteira. Cheirava a… vitória. Um dia esta guerra vai acabar.”
Uma carreira marcante, na qual também dirigiu e produziu outras obras para o cinema e a televisão, além de eventualmente fazer teatro. Robert Duvall faleceu em sua casa no interior do estado da Virgínia, na noite de domingo, aos 95 anos de idade.
