O sistema financeiro global é o cenário de O Roubo, minissérie original do Prime Video. Seu criador, Sotiris Nikias (Café 404), constrói uma narrativa que foge do espetáculo pirotécnico dos assaltos a banco tradicionais para focar no terror psicológico e na violência estrutural dos colarinhos brancos.
No centro do furacão está Zara, interpretada por Sophie Turner (Game of Thrones). Zara não é uma mente criminosa brilhante, mas uma funcionária comum e desiludida da Lochmill Capital que se vê forçada a transferir 4 bilhões de libras durante um assalto a mão armada extremamente coordenado.
Ao seu lado, Archie Madekwe (Saltburn) vive Luke, o colega de trabalho cujo desespero serve de contraponto à frieza instintiva de Zara. A dinâmica entre os dois, que começa como uma aliança de sobrevivência e descamba para uma teia de cumplicidade e segredos, é o que mantém o espectador preso aos seis episódios. Fora do escritório sitiado, o detetive Rhys, vivido por Jacob Fortune-Lloyd (O Gambito da Rainha), traz uma camada extra de tensão ao lidar com a investigação enquanto luta contra o próprio vício em jogos.
A direção geral de O Roubo opta por uma paleta de cores frias e uma câmera que parece vigiar os personagens, reforçando um tom de paranoia no ambiente corporativo londrino. O roteiro (também de Nikias) é sagaz ao transformar termos técnicos de mercado financeiro em ferramentas de suspense, fazendo com que um simples carregamento de dados tenha o mesmo peso dramático de uma perseguição de carros.
O grande mérito de O Roubo é não se contentar em ser apenas um thriller de entretenimento rápido. A série questiona (ainda que nas entrelinhas) a moralidade de um sistema onde bilhões podem sumir em segundos, impactando a vida de milhares de aposentados, enquanto os verdadeiros arquitetos do caos permanecem protegidos por camadas de burocracia e paraísos fiscais.
A jornada de Zara Dunne é um estudo sobre os limites da ética sob pressão. E o desencanto da juventude com o que lhes é oferecido atualmente. Conforme a trama avança e as reviravoltas revelam que ninguém é totalmente inocente, Sophie Turner mostra que sua personagem não está apenas tentando sobreviver ao assalto, mas sim tentando encontrar uma saída para a própria vida estagnada.
O Roubo é um suspense corporativo que entende o seu tempo. Começa muito bem e vai oscilando a voltagem ao longo dos episódios. Achei o desfecho baunilha demais… Mas esse é o estilo inglês que predomina em muitas séries.
