Crítica | Filme | Ela Disse

Crítica | Filme | Ela Disse

Normalmente, são necessárias uma ou duas décadas para que seja possível analisar um determinado momento histórico. No caso do Brasil, mais especificamente, serão precisos 100 anos. Por enquanto…

Ela Disse tem foco preciso na onda de denúncias que surgiram nos EUA às vésperas da eleição de Donald Trump à presidência. Inicialmente, o jornal The New York Times investigava denúncias de assédio contra o ex-presidente, até que o nome de Harvey Weinstein é citado debaixo do mesmo tema.

A poderosa Miramax

Harvey e seu irmão, Bob, chefiaram durante um bom tempo a todo-poderosa Miramax, produtora independente ligada à The Walt Disney Co. dedicada ao cinema independente.

Os Weinstein, por exemplo, foram responsáveis por lançar a franquia Pânico, Kill Bill e mais recentemente Magnatas do Crime.

Graças ao lobby feito pela Miramax e pelos Weinstein que o brasileiro Cidade de Deus melhorou suas chances de Oscar® em 2004 (o filme levou quatro estatuetas).

O começo de tudo

Como se vê, os caras mandaram soltar e prender durante muito tempo. Não fosse a reportagem do The New York Times, talvez ainda mandassem. Ela Disse registra os esforços das repórteres Megan Twohey (Carey Mulligan, de Educação) e Jodi Kantor (Zoe Kazan, de Doentes de Amor) para soltar uma matéria expondo alguns casos de assédio cometidos por Harvey Weinstein ao longo desse “muito tempo”.

Ao que consta, isso já ocorria desde o começo dos anos 1990, não apenas com atrizes aspirantes a papéis ou participações em projetos, mas também com funcionárias da empresa. A atriz Rose McGowan (Planeta Terror) foi quem projetou o tema para a mídia. Isso, lá em 2017, para um assédio ocorrido em 1997.

O filme mostra que, depois de levar o caso a colegas, empresários e executivos do mercado de entretenimento, nada ocorreu. Quer dizer, quase nada.

Weinstein seguiu na mesma toada e Rose caiu no ostracismo. Outras duas atrizes citadas em Ela Disse são Gwyneth Paltrow (Homem de Ferro) e Ashley Judd (Risco Duplo). Judd, aliás, interpreta a sim mesma no filme e foi pivotal para a publicação da reportagem.

Contudo, os depoimentos de algumas ex-funcionárias de Weinstein colaboraram muito para o desenrolar do processo.

Salvar outras mulheres

O espírito de Megan Twohey e Jodi Kantor não era simplesmente vender jornal ou fazer sensacionalismo às custas do sofrimento dos outros. No filme dirigido por Maria Schrader, as duas jornalistas querem evitar que outras mulheres sofram e se empenham na checagem de informações. Como manda o manual do bom jornalismo.

Ainda que todos saibam o resultado desse empenho, o roteiro de Rebecca Lenkiewicz conta uma história que cativa a atenção desde o princípio.

Não é possível dizer se alguma licença poética foi cometida. Ao contrário, nota-se esmero, por exemplo, ao não se mostrar Gwyneth Paltrow (ela é apenas citada) ou mesmo usar um dublê de corpo para Weinstein.

Mesmo tendo como base o best-seller do New York Times, Ela Disse: Os Bastidores da Reportagem que Impulsionou o #MeToo, escrito por Megan e Jodi, o filme não ultrapassa os limites da responsabilidade no assunto.

Possivelmente, respaldado juridicamente. Uma vez que, ainda que preso e desprestigiado publicamente, o ex-chefão de Hollywood tenha como bancar os melhores advogados dos EUA para nublar a verdade.

Ligando os pontos

Nessa história recente, já traída por nossa memória circunstancial, é de bom tamanho ligar os pontos até o momento atual. Até o Brasil.

A reportagem do The New York Times e posteriormente o #MeToo fizeram com que muitas denúncias viessem a público. E não apenas contra Harvey, mas contra outras celebridades americanas. Muitos processos ainda estão rolando e alguns sequer foram conhecidos.

É sabido que não apenas o poder dos assediadores, mas o constrangimento das vítimas virem a público, reprimem muitas denúncias.

No Brasil, quase que concomitantemente, pipocaram casos envolvendo pessoas ligadas à televisão nacional. Teve gente afastada do trabalho, teve gente processada e teve gente chamando tudo isso de mi-mi-mi. Claro, respaldados por um governante misógino, machista, sexista e, acima de tudo, negacionista.

Contudo, fica a mensagem mais forte passada por todo o intento de Megan Twohey e Jodi Kantor. Assédio sexual foi banalizado no passado, depois foi denunciado e agora precisa ser banido da cultura mundial. Em definitivo. O assédio moral também!

As pessoas assediadas têm que ter voz, têm que ser ouvidas e seus assediadores devem ser conhecidos do grande público. Ela Disse tem distribuição da Universal Pictures e estreou em 8 de dezembro de 2022 em circuito nacional. Está disponível em algumas plataformas digitais.

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