Mais profundo que seu antecessor, Duna: Parte 2 também explora com muito mais afinco a cultura dos Fremen, o povo originário do planeta Arrakis. Para isso, o diretor Denis Villeneuve investiu em um item crucial para retratar uma cultura, o idioma.
Pois longe de ser apenas um bando de sons sem sentido, a língua dos Fremen que ouvimos nos filmes ganhou vida, com estrutura, gramática e vocabulário próprios. Trabalho que permite que os atores, em especial Timothée Chalamet e Zendaya, usem o idioma do povo ficcional da mesma forma que você faz com o português quando lê esse texto.
O criador do idioma dos Fremen
É famoso o trabalho de J. R. R. Tolkien na criação de idiomas completos para os povos de O Senhor dos Anéis. Frank Herbert, entretanto, dedicou bem menos tempo ao assunto. As palavras que aparecem nos livros da série Duna são termos que ele tomou emprestado de diversos idiomas, em especial da região do Cáucaso. Vêm de lá palavras como kanly, a vendeta entre tribos islâmicas que se tornou sinônimo da vingança entre as casas do Império em Duna.
Outro empréstimo é o nome do lar dos Fremen e cenário de um momento dramático no segundo filme, o Sietch Tabr. Tanto sietch como tabr são palavras para acampamento usadas pelos cossacos, os guerreiros do czar. Já o nome que Paul Atreides assume entre os Fremen vem de outra fonte. Em Duna, Muad-dib é um tipo de rato do deserto. Em árabe, muad’dib significa professor.
Foi para dar vida ao idioma Fremen a partir dessas poucas dicas dos livros que Denis Villeneuve contratou o linguista David J. Peterson. Criador do Dothraki para Game of Thrones (2011), além de idiomas para The Witcher (2019) e Thor: O Mundo Sombrio (2013), entre vários outros projetos, Peterson e sua esposa Jessie responderam às perguntas do CriCríticos sobre o trabalho que fizeram em Duna: Parte 2.
Como inventar um idioma?
CriCríticos: Herbert apenas descreveu o idioma Fremen e usou algumas palavras. Como foi trabalhar a partir de tão pouca informação?
David J. Peterson: Nosso objetivo foi incorporar todas as palavras incluídas no livro da melhor forma possível, mantendo intactos o som e o significado. E criar uma língua em torno desse conjunto que sustentasse o som e o significado. Menos material significa que criamos mais, e isso torna o trabalho mais fácil. Criamos um sistema de som que acomoda todas as palavras que estão no livro.
C: Os Fremen são profundamente conectados ao ecossistema de Duna, como isso se reflete em seu idioma?
Peterson: Toda língua tem nomes para as coisas no ambiente onde você vê a cultura refletida na gramática e no vocabulário. Aqui usamos as descrições da cultura no livro para guiar nosso trabalho.
C: As línguas frequentemente “emprestam” palavras umas das outras quando povos locais e invasores entram em contato. Embora os Harkonnen e os Fremen nunca transitem pelo mesmo espaço, os dois estão em contato há décadas. Como você trabalhou esse aspecto das línguas?
Peterson: Essa é uma pergunta bem interessante e levanta uma das questões que surgem ao fazer um programa de televisão ou um filme. Em termos de orçamento, toda produção concentra sua atenção no rumo da história. Não ouvimos muito da língua Fremen no primeiro filme porque a ação acontece em outro lugar. Já em Duna: Parte 2, a maior parte da ação acontece com os Fremen. Nunca houve planos para dar corpo à língua Harkonnen porque além de não ser um aspecto fundamental para ilustrar a família, a ação se passa em outro lugar. Por isso, não existe uma língua Harkonnen da qual emprestar palavras. Seria incrível se tivéssemos permissão para criar todas as línguas do universo Duna de forma que elas pudessem emprestar uma da outra.
A linguagem de sinais
CriCríticos: Como você criou as linguagens de sinais usada por Paul e Jessica e pelos Fremen?
Peterson: É um sistema baseado na necessidade. O que eu quero dizer é que é um sistema que tem de ser secreto e versátil. Pois isso significa que aqueles que o conhecem podem entender a mensagem e quem não o conhece vai pensar que viu apenas movimentos comuns das mãos. Assim, os sinais não são muito precisos, eles podem significar coisas diferentes dependendo da situação, e eles podem ser feitos de formas diferentes. Para muitos dos diálogos do primeiro filme, eu gravei formas diferentes para a mesma mensagem, dependendo se o ator estivesse com uma ou as duas mãos livres e com qual das mãos sinalizariam. Há também formas diferentes de sinalizar para situações em que ator poderia usar a mão toda e outras em que usa somente os dedos. O sistema tem de ser versátil para não ser detectado com facilidade.
C: Além da língua falada e dos sinais, você criou versões escritas? No desembarque dos Atreides no primeiro filme, vemos um livro escrito em Caladan.
Peterson: Criei um sistema de escrita para os Fremen, que você pode ver em alguns pontos, contudo, não trabalhamos com outros sistemas de escrita.
C: Após a criação do idioma, vocês trabalham com o elenco?
Peterson: Não tivemos a oportunidade de trabalhar com o elenco. Eu gravei as frases em mp3, como fazemos em todas as produções, e os atores ouvem e repetem.
