Bons Companheiros e a homenagem aos dublês

Bons Companheiros e a homenagem aos dublês

É complicado lembrar qual foi o primeiro filme que assisti de Jackie Chan aqui no Brasil. O motivo é que vários de seus filmes, mesmo os feitos nos Estados Unidos, nunca chegaram ao Brasil ao mesmo tempo de seu lançamento original. Um exemplo é A Fúria de Chicago (1980), que só chegou ao Brasil dois anos depois, quando o filme Quem Não Corre Voa (1981), que tem uma pequena, mas memorável participação de Jackie, foi trazido pela Warner Bros.

Jackie, por sua vez, levou vários anos até deixar de usar nomes como Jacky Chan, Yuan Lung Cheng, Chen Lung ou mesmo seu nome de nascimento, Kong-Sang Chan. Foi com A Fúria de Chicago que ele passou a usar oficialmente seu nome artístico em uma infinidade de obras que se tornaram populares e até mesmo clássicas no gênero de artes marciais.

O grande diferencial de seus filmes feitos em Hong Kong, além de uma boa dose de ação misturada com humor, eram os créditos finais. Ali nascia a lenda dos filmes de ação e artes marciais. Jackie mostrava que, diferente dos filmes de ação de outros países, suas cenas eram reais. Por conta própria e com risco de vida, ele pulava de prédios, saltava de árvores, pulava de helicópteros sobre trens em movimento e até ficava em cima de balões. Eram momentos de tirar o fôlego, que o público assistia antes, quando tudo dava certo, e agora, com os créditos, o assombro do que Jackie Chan fazia para entreter seu público.

Prestes a completar 72 anos em abril, Jackie não diminuiu o seu ritmo. Continua filmando e executando a maioria de suas cenas de ação, só que com toda a estrutura que colegas como Tom Cruise usam para sair ilesos das aventuras cinematográficas. Essa cautela também está na escolha dos trabalhos que ele vem fazendo na última década, como a recente produção feita em Hong Kong, Bons Companheiros.

Jackie decidiu prestar uma homenagem a todas as equipes de dublês com quem já trabalhou dentro e fora da China. Não é uma história sobre um projeto desafiador onde o dublê tem que decidir se faz algo que pode lhe custar a vida ou não, como em Hooper – O Homem das Mil Façanhas (1978), estrelado por Burt Reynolds. Ou ainda os bastidores de uma filmagem do cultuado O Substituto (1980), estrelado por Peter O’Toole e Steve Railsback.

Bons Companheiros é um drama sobre segundas chances…

Jackie é Luo Zhilong, um dos mais famosos e lembrados dublês de filmes de ação da Ásia. Sua dedicação ao trabalho acabou fazendo com que ele perdesse o casamento quando sua filha ainda era criança. Ou seja, temos uma relação pai e filha que terá que ser resolvida (ou não) durante a trama. Aí entra em cena um personagem que será a ligação de todo o drama pessoal e profissional de Zhilong, o cavalo Ventania.

Zhilong cuida do cavalo desde que ele nasceu e quase foi sacrificado por causa de um defeito em suas pernas dianteiras. O mestre dos dublês impediu a morte do animal, cuidando e tratando de sua deficiência até sua idade jovem. Só que o trabalho anda escasso para quem já foi um dos mais requisitados do cinema de ação. O destino, contudo, fez com que um vídeo, onde Ventania e seu mestre são atacados por uma gangue de rua, viralizasse e abrisse as portas para novos trabalhos.

Ao mesmo tempo, entra na vida do mestre dos dublês sua filha, que é advogada, para quem ele pede ajuda para evitar que Ventania seja retomado por um antigo espólio. A relação entre os dois está sempre numa balança. Ela, que ainda sente raiva por ter sido abandonada pelo pai, e ele achando que seu recente sucesso é o suficiente para colocar a relação dos dois em ordem. Não vai ser. Aliás, uma das cenas onde Ventania “atua” sem Jackie é uma homenagem ao filme Cavalo de Guerra (2011), onde um cavalo do exército inglês atravessa uma rua que está sendo bombardeada durante a Primeira Guerra Mundial.

Bons Companheiros vai mostrar a longa jornada de aceitação de que o passado deve ficar no passado, enquanto as novas emoções do presente podem garantir uma relação melhor para esse pai, essa filha e esse animal de estimação. Não gosto muito do título, pela inevitável confusão com o filme de Martin Scorsese. O que acaba construindo a ideia de que o companheirismo vai muito além da relação pai e filha. Um destaque no filme é a participação especial do ator Rongguang Yu, que trabalhou com Jackie Chan na nova versão de Karatê Kid (2010), com Jaden Smith.

É um filme que mostra que Jackie Chan é muito mais do que um astro dos filmes de ação. Ele já demonstrou em outros trabalhos que entende de drama e sabe como colocar seus conflitos básicos em seus personagens. Como acontece em Bons Companheiros, quando sua filha questiona se ele não quer continuar arriscando sua vida por um passado de glórias que já acabaram.

Na carreira de Jackie Chan, sua dedicação em mostrar que era mais do que um bom artista marcial para o cinema fez com que os americanos voltassem a apostar em seu talento como ator no final do século passado, com a trilogia A Hora do Rush. Conquistou o MTV Movie Award por sua carreira em 1995, a mesma honraria que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas lhe concedeu com o Oscar Honorário em 2017.

Para os fãs de Jackie Chan, Bons Companheiros tem várias cenas de ação que se tornaram lendárias, como Projeto China (1983), Police Story – Guerra às Drogas (1985), Armadura de Deus (1986), A Lenda do Mestre Invencível (1994), Quem Sou Eu? (1998), que estão dentro do filme. E, para não sair da tradição, nos créditos do filme, que ele dedica a todas as equipes de dublês, há cenas que não deram certo e Jackie sendo coerente com sua própria idade.

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