O cinema, muitas vezes, serve como uma fuga. Mas o novo longa de Kaouther Ben Hania, A Voz de Hind Rajab, faz exatamente o oposto: ele nos encurrala. Ao reconstruir os últimos momentos da pequena Hind, de apenas seis anos, em meio ao caos em Gaza, a cineasta tunisiana não entrega apenas um filme, mas um artefato de memória que quebra a barreira entre o espectador e a estatística.
O grande triunfo e também a maior fonte de angústia é que Ben Hania toma a decisão audaciosa de usar os áudios reais das chamadas de emergência. Não há trilha sonora manipuladora aqui; o que ouvimos é o timbre de uma criança confrontando o impossível. A tela, muitas vezes ocupada por ondas sonoras, transforma o som em algo tátil, uma presença física que preenche a sala e torna o silêncio posterior ensurdecedor.
Em vez de focar na violência visual explícita, o roteiro escolhe o caminho da “impotência compartilhada”. Passamos a maior parte dos 89 minutos dentro do centro de chamadas do Crescente Vermelho. Vemos os rostos de Omar e Rana, os voluntários que tentam, através do telefone, manter a esperança viva enquanto o mundo lá fora desmorona. Essa escolha transforma o filme em um suspense psicológico real, onde a burocracia da guerra e a demora por autorizações se tornam vilões tão cruéis quanto os tanques.
É claro que uma obra desta natureza não passaria sem controvérsias. Há quem questione se transformar o martírio de uma criança em cinema não cruza uma linha ética perigosa. No entanto, o filme se defende pela sua honestidade radical. Ao contar com o apoio de grandes nomes da indústria e, principalmente, com o aval da família da vítima, a produção deixa de ser um espetáculo de dor para se tornar uma peça de acusação.
A Voz de Hind Rajab não é um filme fácil de assistir, e talvez nem deva ser. Ele triunfa ao nos negar a catarse do entretenimento, deixando em seu lugar uma indignação profunda. É o cinema cumprindo sua função mais primitiva e necessária: a de não nos deixar esquecer.
Como na guerra ninguém ganha e só o povo perde, não é o caso de aqui tomar partido comparando quem matou mais ou determinando quem deu o primeiro tiro. O lance é assistir e meditar. Sem esquerdas ou direitas. Estreia em 29/1 distribuído pela Synapse.

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