O cinema de Park Chan-wook sempre foi marcado por uma precisão quase cirúrgica ao explorar a violência e a psiquê humana. Em seu novo trabalho, A Única Saída (No Other Choice), o diretor sul-coreano mergulha em uma adaptação do romance de Donald Westlake para criar um suspense que é, ao mesmo tempo, uma tragédia familiar devastadora e uma sátira mordaz sobre o mercado de trabalho contemporâneo.
A trama acompanha Man-su, interpretado pelo veterano Lee Byung-hun, um homem comum que, após dedicar 25 anos a uma carreira estável, vê-se subitamente desempregado e empurrado para o abismo de decisões terríveis para sustentar sua família. CriCríticos teve a oportunidade de participar da coletiva de imprensa que reuniu Park Chan-wook e Lee Byung-hun, onde ambos detalharam o processo de construção dessa obra que caminha entre o riso nervoso e o choque absoluto. Confira a seguir alguns destaques dessa conversa.
O paradoxo da proteção familiar
Embora o material original de Westlake tenha um desfecho cínico e quase vitorioso para o protagonista, a visão de Park Chan-wook tomou um rumo mais fatalista. A maior mudança na adaptação foi a inclusão da família no epicentro do conflito moral. Para o diretor, o que o cativou foi a ideia de que as ações do protagonista não poderiam permanecer ocultas para sempre.
“O Man-su, quando comete essas atrocidades, diz a si mesmo que está fazendo isso pela família, e que por isso suas ações são justificadas”, explicou o diretor. No entanto, ele ressalta que essa confiança é uma ilusão que leva à destruição inevitável da alma do personagem. “As mesmíssimas atitudes que ele toma para proteger a família são as mesmas que acabam destruindo sua família no final. É um desfecho muito fatalista que soa como um grande paradoxo”.
Essa dualidade também se reflete no tom do filme. Questionado sobre como equilibrar o humor “pesadíssimo” com a crítica social, Park revelou que não enxerga esses elementos como separados. Para ele, a comédia surge naturalmente do desespero. “Você não consegue evitar o riso diante dos esforços patéticos dele para levar essas decisões adiante. Mas, ao mesmo tempo, não conseguimos abrir mão da empatia. A tragédia amarga, a crítica social e a comédia são uma coisa só”.
O homem comum no olho do furacão

Para Lee Byung-hun (foto acima), dar vida a Man-su exigiu um mergulho em um personagem que, embora tome decisões bizarras, é movido por valores patriarcais e um medo profundo de falhar como provedor. O ator descreveu Man-su como alguém que poderíamos encontrar no dia a dia, mas que é levado ao extremo após um ano de tentativas frustradas de recolocação profissional.”Eu realmente precisava estar convencido desses motivos para conseguir me apropriar do personagem e convencer o público”, afirmou Lee. Ele destacou que o papel permitiu explorar facetas desconhecidas de sua própria atuação: “Pude transitar entre o céu e o inferno, me colocando em situações e emoções extremas”.
Sobre o humor presente no roteiro, Lee confessou que caiu na risada ao lê-lo pela primeira vez, mas que sua abordagem no set foi de total seriedade para manter a verossimilhança: “Tomei muito cuidado para não tentar ser engraçado de propósito. Quanto mais você tem a intenção de fazer o público rir, mais eles podem se sentir distantes. Sob a perspectiva de Man-su, esses momentos são instantes de profundo desespero e vontade de sobreviver”.
Espelhos e coreografias do caos

Um dos momentos mais aguardados do filme é a cena do confronto, que Park Chan-wook (foto acima) descreveu como o ponto de partida de seu rigoroso processo de storyboarding. O diretor revelou que, embora tudo seja planejado com dublês e decupagem prévia, o set sempre reserva espaço para a improvisação, especialmente com um ator como Lee Byung-hun. “Nós trocávamos ideias quase como se estivéssemos brincando”, disse o diretor sobre o clima nas filmagens da cena de ação. Um detalhe curioso revelado por ele foi o silêncio no set: “Como não podíamos tocar a música durante a gravação, os atores tinham que berrar seus diálogos no silêncio total. Eles se sentiram bem bobos na hora, mas essa performance exagerada era exatamente o que precisávamos”.
Lee Byung-hun complementou lembrando que, por se tratar de personagens que não sabem lutar de verdade, a cena exigiu mais do que esforço físico. Houve uma pressão mental imensa por representar o primeiro assassinato de Man-su. “Quando ele observa seu rival, percebe que a relação dele ecoa seu próprio casamento. É quase como se olhar no espelho”, refletiu o ator. “No momento em que entra naquela sala, ele está falando consigo mesmo. É um desabafo emocional”.
A Única Saída estreou em 22/1, distribuído pela Mares Filmes e MUBI.
