Crítica | Filme | Kokuho - Preço da Perfeição

Crítica | Filme | Kokuho – Preço da Perfeição

Fenômeno de bilheteria no Japão, Kokuho é um desafio para o público. Ao longo de três horas de duração, o filme dirigido por Lee Sang-il (Pachinko) narra cinco décadas da vida não apenas de um ator, mas de um ator do tradicional teatro Kabuki, uma arte pouquíssimo conhecida pelo público ocidental, regida por uma coleção de regras estabelecidas ao longo de 400 anos, uma delas proibindo mulheres de subirem ao palco.

Mas, quem não se deixar desencorajar pela dimensão de Kokuho, vai assistir a uma história de amor pela arte, ambição, desejo e amizade que acontece num universo único, recriado com precisão e riqueza de detalhes e atuações impressionantes.

Kokuho significa “tesouro nacional”, título concedido pelo governo japonês a artistas considerados mestres em sua arte. Não há degrau mais alto e ser o melhor é o objetivo de Kikuo. Talentoso, ele impressiona o experiente ator Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe) que o vê ainda adolescente numa apresentação caseira durante uma festa em Nagazaki que termina com o assassinato do pai do menino, um poderoso chefe da yakuza, a máfia japonesa.

Sem família – a mãe morreu da “doença da bomba atômica” – Kikuo é acolhido por Hanjiro e se torna seu aprendiz ao lado de Shunsuke, filho do ator. A conexão entre os dois rapazes é imediata, tanto pela idade como pela necessidade de sobreviver ao rigoroso treinamento e do objetivo em comum. A mesma tradição que os une, no entanto, dá início ao conflito central de Kokuho. Shunsuke (Keitatsu Koshiyama) não tem a mesma paixão pela arte que Kikuo, interpretado nessa fase por Soya Kurokawa (Monster), que dá ao personagem a expressão fascinada de quem encontrou seu lugar no mundo.  Mas, no kabuki, a linhagem familiar é tudo e Shunsuke, mesmo não atingindo o mesmo grau de talento e dedicação de Kikuo, é o herdeiro e deve se tornar Hanai Hanjiro III. Seu sangue é sua proteção, enquanto Kikuo está só.

Treinados para serem onnagatas, atores especializados em papeis femininos, Kikuo, agora interpretado por Ryo Yoshizawa (Kingdom), e Shunsuke (Ryusei Yokohama), formam uma dupla de sucesso no palco. Suas apresentações são alguns dos pontos altos do longa, quando, mesmo com a pesada maquiagem e figurinos idênticos, somos capazes de identificar Kikuo e Shunsuke pelo olhar e atitude.

Mas ambos são prisioneiros de seu sangue. Shunsuke destinado a herdar o posto do pai, sem que isso tenha sido decisão sua, Kikuo impedido de ser o kokuho que almeja por não ser descendente de atores. É um conflito que se agrava quando Hanjiro faz o impensável e escolhe Kikuo como seu substituto durante uma doença. Por um instante, ele parece ter vencido 400 anos de tradição, só para perder tudo pouco depois enquanto a dinâmica entre ele e Shunsuke segue viva mesmo quando estão afastados.

Alternando entre o ponto de vista dos atores no palco, o olhar do público e a visão dos bastidores, close ups e cenas abertas, Lee Sang-il revela não apenas a pressão e o esforço no controle dos movimentos demandados por cada peça, como também a estrutura do Kabuki, que inclui trocas de figurinos em pleno palco.

Ciente de que a maioria do público ocidental e mesmo boa parte do japonês não tem qualquer familiaridade com o teatro kabuki, o filme inclui legendas que explicam o enredo de cada peça apresentada, narrativas que envolvem divindades e amores impossíveis, histórias trágicas de espíritos de animais e plantas que assumem a forma humana, contos de morte e vingança. E que cuidadosamente ecoam a vida dos personagens fora do palco.

Mais do que a beleza do kabuki lindamente fotografado por Sofian El Fani, no entanto, Kokuho é um estudo sobre amizade e ambição, objetivos e o preço que a dedicação integral vai custar, além de temas bem contemporâneos como nepotismo, talento e descendência, mérito e esforço. Dedicado a ser não apenas alguém, mas alguém acima de todos, Kikuo vai deixando as vítimas de seu desejo ao longo da estrada, só para reencontrá-las mais à frente. É impossível não sentir simpatia por seu esforço, mesmo reconhecendo suas falhas e o mal que causa às pessoas, mesmo aquelas que o apoiam. O mesmo acontece com Shunsuke, a quem jamais foi perguntado se queria ser ator ou onnagata. Não há vilões ou heróis em Kikuho, apenas pessoas que convivem com seus erros. Com um elenco afinado, o longa se apoia em Yoshizawa, que dá a Kikuo uma constante distância e ao mesmo tempo anseio por aceitação, enquanto Yokohama faz o contraponto com Shinsuke vivendo a certeza de quem tem lugar garantido por circunstâncias fora de seu controle, mas ainda assim válidas. Estreia em

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