Crítica | Filme | Depois do Fogo

Crítica | Filme | Depois do Fogo

Existem tragédias que o cinema prefere filmar no auge do caos. O diretor Max Walker-Silverman (Uma Noite no Lago), no entanto, escolhe o momento seguinte: o silêncio ensurdecedor de um terreno baldio onde antes existia uma vida. Em Depois do Fogo (Rebuildimg em inglês, autoexplicativo), o deserto do oeste estadunidense deixa de ser o cenário de conquistas do faroeste clássico para se tornar o palco de uma vulnerabilidade profunda e necessária.

O filme gira em torno de Dusty, interpretado por Josh O’Connor (Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out). Seu Dusty não é o caubói indomável das lendas, mas um homem despojado de sua identidade junto com seu rancho. A forma como ele habita o acampamento provisório do governo revela um homem que, ao perder o teto, perdeu também o mapa de quem deveria ser.

O reencontro com a filha Callie-Rose (Lily LaTorre) e o acerto de contas silencioso com a ex-mulher Ruby, vivida por Meghan Fahy (The White Lotus), foca na maturidade. Não há vilões aqui; apenas pessoas tentando lidar com um “paradoxo de moradia” que o próprio diretor vivenciou em sua história familiar: como chamar de lar um lugar que o fogo pode levar a qualquer momento?

Walker-Silverman evita o melodrama fácil, preferindo o naturalismo das conversas sobre o nada e que dizem tudo. A presença veterana de Amy Madigan (A Hora do Mal) como Bess traz um peso ao drama.

Esteticamente, o filme é um exercício de contemplação. A fotografia captura a vastidão do deserto não como um vazio, mas como um espaço de possibilidades. O ritmo, embora meditativo e por vezes lento para os padrões do grande público, é coerente com o processo de cura: não se reconstrói uma vida na velocidade de um clique.

Depois do Fogo triunfa ao não oferecer resoluções mágicas. O fogo é um desastre, mas o filme o enxerga como um ponto de mutação. É uma obra sobre a força de seguir em frente quando não se tem mais nada para carregar, exceto os vínculos que o fogo não pôde queimar. Um retrato humanista essencial para quem acredita que o cinema deve ser um espelho da resiliência. Talvez para poucos… Estreia em 12/3 distribuído pela Synapse.

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