Crítica | Filme| Devoradores de Estrelas

Crítica | Filme| Devoradores de Estrelas

O mundo vai acabar. O sol, nossa estrela mais próxima, está sendo lentamente devorada e se apagando. Em trinta anos, eu, você e todo o resto estaremos mortos por falta de alimentos. Isso se todos os países do mundo trabalharem juntos num plano global de racionamento.

Em outras palavras, como mostrou a briga de foice por remédios durante a pandemia, vamos durar bem menos.

Para resolver o problema, surge o projeto Ave Maria – nada a ver com a religiosidade e sim uma referência a uma jogada desesperada no futebol americano – destinado a descobrir o que são os pontos estranhos que viajam pelo espaço devorando estrelas e a solução para a catástrofe iminente. É por isso que Grace (Ryan Gosling) acorda de um coma induzido numa nave espacial a caminho de Tau Ceti, a única estrela não devorada.

Muita coisa aqui não é novidade no gênero fim de mundo: a cooperação de agências espaciais de vários países, a tripulação multinacional e diversa e, claro, a figura do herói relutante que vai solucionar o caso.

Atuando sozinho por boa parte do tempo, Ryan Gosling carrega a história nas costas com seu charme de cara bacana, um tanto de humor e um não muito suave pedido para que o público acredite em tudo aquilo. Se você acha que a história lembra Perdido em Marte, não é à toa. Os dois filmes são baseados em livros de Andy Weir e exploram personagens que enfrentam situações de isolamento no espaço em que a morte é certa e precisam recorrer a seu próprio engenho para não apenas seguir em frente, mas solucionar questões de grande monta.

O pessoal que conhece astrofísica, mecânica e toda a área aeroespacial certamente vai ter com o que se divertir por anos analisando essas questões do filme, incluindo como Grace aprende a comandar a nave tão rapidinho. O centro da história, no entanto, não é se somos capazes de construir uma nave e mandar para Tau Ceti – é provável que sim, se parássemos de gastar em bobagem, mas essa é discussão para outra hora – se é possível existir algo capaz de consumir o sol ou a forma bizarra como Grace acabou na situação em que o encontramos, o que é explicado por cenas em flashback. O verdadeiro coração da história é a amizade que surge entre Grace e um alienígena do sistema Eridani que está em Tau Ceti pelo mesmo motivo do terráqueo, salvar seu planeta.  

É aqui que entra a verdadeira necessidade de suspensão de descrença. Sem rosto, o ser de formato aracnídeo batizado de Rocky por seu mano terráqueo é capaz de conquistar a simpatia, desde que o público deixe pra lá qualquer questão sobre a possibilidade real de tal encontro. Que inclui uma referência a Contatos Imediatos do Terceiro Grau que vai revelar todos os cinquentões presentes na sala ou, pelo menos, todos que já viram o longa de Spielberg.  Ou como essa é mais uma história de pessoas dispostas a participar de uma missão suicida e da única não disposta a se sacrificar pela humanidade e que acaba fazendo a diferença, com direito até uma parada para Sandra Hüller, que interpreta a chefe do projeto Eva Stratt, cantar Sign of the Times num porta-aviões num momento planejado e bem sucedido em trazer lágrimas.

O verdadeiro tema de filme um tanto longo, com uma cena final que realmente não precisávamos, e por vezes um tanto carregado no açúcar é como as coisas podem, no final, dar certo. Tudo isso embrulhado num pacote cheio de charme e gentileza. Estreia em 19/3 distribuído pela Sony.

Deixe uma resposta