Filmado em um preto e branco profundo e texturizado, A Mensageira tenta subverter a lógica dos road movies tradicionais para entregar uma jornada que é, ao mesmo tempo, um retrato da sobrevivência econômica e uma investigação sobre o luto contemporâneo.
A trama acompanha a jovem Anika (Anika Bootz), cujos tutores, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), transformam sua suposta habilidade de se comunicar com animais mortos em um negócio itinerante. Cruzando o interior da Argentina em uma van desgastada, o trio oferece consultas mediúnicas para donos de pets desesperados por uma última palavra de seus companheiros.
O grande mérito do diretor, Iván Fund, é a recusa em rotular seus personagens como vilões. O “oportunismo” aqui não é fruto de má índole, mas de uma necessidade de sobrevivência em meio a uma crise econômica asfixiante. O filme habita uma zona cinzenta fascinante: Myriam e Roger estão vendendo uma mentira ou estão entregando o único consolo que aquelas pessoas podem pagar?
Anika Bootz é a força centrípeta da obra. Sua performance é magnética justamente por ser indecifrável; ela oscila entre o tédio de uma adolescente comum e a gravidade de alguém que carrega o peso de vozes invisíveis. Ela não “interpreta” uma médium; ela vive uma jovem que parece ter descoberto que a performance da empatia é a sua maior ferramenta de proteção. Tudo bem orgânico.
A fotografia em preto e branco, ao mesmo tempo em que explora paisagens um tanto áridas da fronteira argentina, também tornam-se cenários quase oníricos, onde a linha entre a realidade e o misticismo se apaga.
Por isso, talvez, A Mensageira não seja um filme para todos. Para começar… Sua estrutura episódica – onde cada parada da van apresenta um novo “cliente” e uma nova dor – pode soar repetitiva para espectadores que buscam um clímax dramático convencional ou uma resolução definitiva sobre a veracidade do dom de Anika. O roteiro prefere o acúmulo de silêncios e observações à progressão de eventos, o que, embora coerente com a proposta meditativa, pode tornar a experiência arrastada.
Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim 2025, A Mensageira pode ser uma visão sobre a necessidade humana de ouvir um “adeus”. Ainda que focado no luto pelos animais com a seriedade de uma tragédia grega. Estreia em 19/3 distribuído pela Filmes do Estação.
