Existem filmes que custam caro, mas poucos custam a própria pátria. Vencedor do prêmio do júri em Sundance 2025 e do BAFTA, e vencedor do Oscar 2026 de Melhor Documentário, esta obra dirigida pelo americano David Borenstein (Dream Empire) e pelo russo Pavel “Pasha” Talankin é um registro de guerrilha sobre o fim do pensamento livre nas escolas russas.
O “Mr. Nobody” do título é Pasha Talankin, um professor e coordenador de eventos em uma escola na poluída cidade industrial de Karabash. Quando a invasão da Ucrânia começa em 2022, a escola deixa de ser um local de ensino para se tornar uma engrenagem de propaganda. Pasha, sob o pretexto de documentar os rituais patrióticos para os arquivos da escola, começa uma missão secreta: registrar a militarização de crianças.
A coragem dos realizadores transparece em trechos que gelam o sangue pela sua banalidade. Em uma cena, crianças de dez anos marcham e repetem slogans de guerra como se decorassem a tabuada. Em outro momento, Pasha filma mercenários do Grupo Wagner visitando a escola para ensinar os alunos a manusear granadas e fuzis AK-47. Quando uma criança aponta a arma para a lente da câmera e finge atirar, o documentário resume sua força: é o retrato de uma geração sendo preparada para o abate.
Um dos momentos mais potentes é um monólogo de Pasha diante da própria câmera, escondido em sua sala: “Adoro o meu trabalho, mas não quero ser um peão do regime.”
Essa frase resume o dilema ético que atravessa o filme. Pasha não é um herói de ação; sua bravura reside no tremor de suas mãos ao questionar um colega professor de história, fervoroso apoiador de Putin, sobre a “reeducação” dos alunos. A tensão é palpável porque sabemos que, na Rússia atual, aquele registro pode significar prisão perpétua por traição.
A produção de Um Zé Ninguém Contra Putin foi uma operação de resgate, como vemos logo no começo do documentário. David Borenstein e sua equipe na Dinamarca comunicavam-se com Pasha apenas por canais criptografados e em código. À medida que as leis russas contra a “difamação das forças armadas” endureceram, ficou claro que o filme não poderia existir com Pasha dentro da Rússia.
Em junho de 2024, Pasha fugiu da Rússia carregando sete discos rígidos com centenas de horas de filmagem. Hoje, ele vive no exílio em um local não revelado na Europa. Ele foi rotulado como traidor pela mídia estatal russa e, segundo o diretor Borenstein, não há caminho de volta para casa sob o atual regime. Esteve presente em Los Angeles para receber o Oscar e discursou em russo.
Um Zé Ninguém Contra Putin é um manual de resistência. Ele prova que a batalha mais importante de uma guerra pode não ocorrer no front, mas dentro das salas de aula. E que tipo de desinformação é possível praticar dentro das escolas, formando uma geração inteira de “engajados” por força de mentiras e repressão. Tipo, tomar vacina transforma as pessoas em javarés, mamadeira de piroca e terraplanismo.
Só acho que poderia ter um arremate no final. Apenas informar que Pasha deixou a Rússia levando vários vídeos não me pareceu conclusivo o suficiente. Estreia na plataforma Filmelier+ em 26/3.
