Confesso que esperava ver algo no estilo Dallas, a série dos anos 1970 que revelou os bastidores dos poderosos homens do petróleo do Texas por meio da família Ewing, quando comecei a assistir ao primeiro episódio de The Madison. A nova série chegou com uma sinopse divulgada pelo serviço de streaming, informando que a personagem de Michelle Pfeiffer, Stacy Clyburn, sofre uma grande perda que a obriga a ir até o interior do estado de Montana para reconstruir sua vida.
Ou seja, trata-se de um drama sobre perda, família e deslocamento, em um lugar onde nenhum dos personagens parece ter conexão. Afinal, a família Clyburn faz parte da elite da sociedade de Nova York, e conviver com algo tão distante quanto a zona rural de Montana nunca esteve em seus planos. Mesmo quando o patriarca da família, Preston, interpretado por Kurt Russell, insistia que todos deveriam conhecer o local onde ele e o irmão Paul, vivido por Matthew Fox, passavam as férias pescando e se conectando com a natureza, ninguém demonstrava interesse em viajar para um lugar tão remoto.
Quis o destino que tudo isso mudasse radicalmente quando Stacy recebe a notícia de que um acidente de avião tirou a vida de seu companheiro de quarenta anos. A tragédia a leva até esse pequeno lugar às margens do rio Madison, onde Preston e Paul construíram suas casas para a tradicional pescaria anual. A dor da perda se intensifica quando ela descobre que Preston escrevia um diário sobre essas viagens com o irmão. Nesse momento, ela percebe que, ao longo de quatro décadas de casamento, havia um lado do marido que ela não conhecia. E agora, por força das circunstâncias, deseja descobri-lo.
Ao terminar de assistir ao primeiro episódio da temporada, que conta com apenas seis capítulos, fui verificar os créditos iniciais para descobrir quem havia escrito aquele episódio sensível e intenso. A experiência de acompanhar séries, tanto pessoal quanto profissionalmente, mostra que o episódio piloto costuma ser o mais criativo na apresentação da história, dos personagens e da trama. O responsável por aquele momento de emoção era, para minha surpresa, Taylor Sheridan.
O motivo é claro. Sheridan reinventou o faroeste moderno ao escrever os roteiros de Sicario: Terra De Ninguém (2015) e A Qualquer Custo (2016), este último rendendo uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. A partir daí, expandiu seu estilo para a televisão com Yellowstone (2018), consolidando um universo próprio ao firmar acordo com a Paramount. Desse projeto surgiram produções como 1883 (2021), 1923 (2022), Operação Lioness (2023), O Dono De Kingstown (2021), Tulsa King (2022) e Landman (2024).
Todas essas séries exploram o lado mais violento do oeste contemporâneo criado por Sheridan. Mesmo Yellowstone, que acompanha a luta de John Dutton, interpretado por Kevin Costner, para preservar as terras da família, apresenta intrigas, conspirações e conflitos armados. Por isso, causa surpresa perceber como o mesmo autor constrói um texto delicado e emocional em The Madison.
Em uma análise mais ampla de sua obra, é possível notar sutilezas frequentemente ofuscadas pelo contexto. Em Sicario: Terra de Ninguém, o personagem de Benicio Del Toro é um assassino profissional que esconde uma motivação pessoal profunda: ele é pai. Em A Qualquer Custo, os irmãos interpretados por Chris Pine e Ben Foster recorrem ao crime para salvar a fazenda da família – um espaço carregado de memória e pertencimento.
Taylor Sheridan escreve sobre família. Seus personagens não enfrentam apenas inimigos externos, mas também conflitos internos ligados à proteção daqueles que amam. Esse elemento aparece de forma clara em Operação Lioness, quando a personagem de Zoe Saldaña percebe o impacto de suas ações na vida pessoal.
Em The Madison, não acompanhamos apenas uma família lidando com o luto. Observamos como essa perda redefine relações e exige mudanças profundas. O contraste entre a vida urbana e o ambiente rural cria um antagonismo emocional que sustenta a narrativa. As lembranças registradas no diário de Preston funcionam como ponte entre esses mundos, permitindo que Stacy enxergue a beleza de um lugar que nunca conheceu plenamente.
Dois elementos técnicos ajudam a traduzir esses sentimentos: a fotografia de Christina Alexandra Voros e a trilha sonora de Brian Tyler. Em cenas como a descrição do vale dourado associada à memória de Stacy, imagem e som trabalham em harmonia, evitando o sentimentalismo fácil e conduzindo o espectador a uma experiência emocional mais autêntica.
Engana-se quem pensa que a intensidade dramática da série se deve apenas ao formato enxuto de seis episódios. A força narrativa está na maneira como a dor impulsiona transformações nos personagens: Stacy, suas filhas Abigail e Paige, o genro Russell e as netas Bridget e Macy passam a compreender que suas vidas não serão mais as mesmas.
The Madison se destaca como um dos dramas mais sensíveis da televisão recente ao abordar uma história de amor a partir da perda. Diferente de produções como Downton Abbey (2010) ou Mad Men (2007), que exploram contextos históricos específicos, aqui o foco está em uma experiência universal: o luto e suas consequências.
Trata-se de uma narrativa sobre pessoas obrigadas a encarar uma realidade em que a dor é inevitável e o tempo perdido não pode ser recuperado. O tempo, como as águas de um rio, segue em movimento contínuo.
Assista a The Madison no Paramount+ e prepare-se para uma experiência emocional intensa. Vale a pena manter uma caixa de lenços por perto.
