Investigar o passado do Brasil nem sempre é um exercício seguro e o filme brasileiro A Conspiração Condor faz questão de deixar isso claro em cada frame. Estreando nos cinemas neste 9 de abril, o filme dirigido por André Sturm (produtor com a Pandora Filmes) mergulha no ano de 1976 para questionar as mortes suspeitas dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. O longa não se contenta em ser apenas um registro histórico; ele se assume como um suspense político.
No centro da trama está a jornalista Silvana, vivida por uma Mel Lisboa (recentemente vista em Coisa Mais Linda) inspirada. Silvana personifica a resistência da imprensa em um período de censura. Ao lado dela, um elenco estelar que inclui Dan Stulbach (O Vendedor de Sonhos) e Pedro Bial ajuda a construir o mosaico de uma época marcada por silêncios impostos. O roteiro, assinado por Sturm e pelo escritor de thrillers Victor Bonini, é hábil ao transformar documentos e teorias reais em uma narrativa de “gato e rato” contra o sistema.
Sturm ainda faz uma ponta como o crítico de cinema Rubens (em uma singela homenagem ao REF?), que trabalha no mesmo jornal que o personagem de Mel.
A direção de fotografia opta por uma estética que remete ao cinema político europeu dos anos 70, com ambientes claustrofóbicos e uma sensação constante de vigilância. A produção acerta ao focar na tensão psicológica e no peso das descobertas de Silvana sobre a Operação Condor.
No fim das contas, A Conspiração Condor é um entretenimento necessário e corajoso. Embora o excesso de informações históricas possa exigir uma atenção redobrada do público, o filme compensa com um suspense de qualidade que prova que o cinema brasileiro sabe tratar suas cicatrizes com inteligência e fôlego cinematográfico. É um convite para olhar para trás e entender que, muitas vezes, as coincidências da história são apenas o rastro de algo muito mais sinistro.
Para quem não lembra, a Operação Condor não foi apenas uma colaboração informal de alguns países da América do Sul com a inteligência americana na tentativa de manter os militares no poder e o fantasma do comunismo afastado.
Foi um sistema sofisticado de repressão transnacional que transformou a América do Sul em um território sem fronteiras para a perseguição política. Formalizada em 1975, a aliança permitiu que as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia “caçassem” opositores em qualquer país vizinho, eliminando a barreira do asilo político.
O papel da inteligência norte-americana, revelado por documentos desclassificados durante o governo Bill Clinton, mostrou que a CIA serviu como uma espécie de “facilitadora” técnica. Através de sistemas de comunicação avançados e treinamento, os EUA garantiram que as informações sobre dissidentes circulassem com eficiência entre os órgãos de repressão. O apoio era estratégico: conter o avanço do que chamavam de “ameaça comunista”, mesmo que isso custasse a vida de milhares de civis e a destruição de lideranças democráticas.
No Brasil, o debate sobre a Condor ganha contornos dramáticos com as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart em 1976. Embora os laudos oficiais da época falassem em causas naturais ou acidentais, a coincidência temporal e o contexto de perseguição revelados pelos arquivos históricos sugerem uma operação de “limpeza de campo” política.
Entender a Operação Condor é entender por que o filme de André Sturm é tão necessário: a ferida ainda está aberta porque o arquivo, embora revelado, nunca foi totalmente digerido pela nossa sociedade.
