Crítica | Filme | Vidas Entrelaçadas

Crítica | Filme | Vidas Entrelaçadas

O mundo da moda costuma ser retratado no cinema pelo prisma da futilidade ou da crueldade. Em Vidas Entrelaçadas (Couture), a diretora e roteirista Alice Winocour (de A Próxima Parada: Marte) escolhe um caminho oposto e muito mais profundo. O filme usa a efervescência da Paris Fashion Week apenas como moldura para um drama potente sobre três mulheres que, apesar de mundos distantes, compartilham a mesma luta pela sobrevivência e autonomia.

O grande destaque é, sem dúvida, Angelina Jolie (Maria Callas), que interpreta Maxine Walker, uma cineasta americana lidando com o diagnóstico de câncer de mama. A entrega de Jolie é vistosa, emprestando suas cicatrizes reais para uma personagem que busca sentido na vida enquanto enfrenta a própria mortalidade. Diria que a atriz foi até corajosa ao se expor, física e psicologicamente. E nada panfletária, marcando assim, um ponto de vista de modo eficiente.

Ao lado dela, a estreante Anyier Anei vive Ada, uma modelo do Sudão do Sul em busca de liberdade (mas que não sabe se a moda é o caminho para isso), e Ella Rumpf (vencedora do César por O Desafio de Marguerite) completa o trio como Angèle, uma maquiadora aspirante a escritora. A química entre elas aflora em uma solidariedade silenciosa.

No elenco masculino estão Vincent Lindon (Com Amor e Fúria) e Louis Garrel (O Pequeno Garrel),

Visualmente, Winocour foca menos no brilho das passarelas para revelar mais a intimidade dos bastidores (filmado dentro do showroom e ateliê da Chanel em Paris). A fotografia captura o contraste entre a perfeição estética dos desfiles e a fragilidade dos corpos que os sustentam. Fruto de uma pesquisa de campo minuciosa da diretora que transparece, por exemplo, nas cenas de maquiagem das modelos ou de ajuste de figurino.

No fim das contas, Vidas Entrelaçadas é um filme sobre a humanidade, sobre problemas humanos. É um drama delicado, por vezes doloroso, mas imensamente inspirador. Alice Winocour prova que a verdadeira beleza não está na roupa, mas na resiliência de quem a veste e de quem a produz.

Estreia em 16/4 distriubído pela Synapse Distribution.

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